
Por Dr. Max Cohen, economista da Fecomércio-AM
A possível substituição da escala 6x1 por uma jornada organizada em cinco dias de trabalho e dois de descanso tende a produzir efeitos distintos entre as empresas brasileiras. Para grandes redes, a adaptação poderá ser apoiada por equipes numerosas, sistemas de gestão, automação e capacidade financeira. Para micro e pequenas empresas, especialmente no comércio e nos serviços presenciais, o desafio será maior: manter o horário de funcionamento, preservar o atendimento e sustentar o faturamento com menos horas disponíveis por empregado.
O problema não se limita à redução da jornada semanal. Pequenos estabelecimentos geralmente operam com equipes reduzidas, nas quais cada trabalhador exerce uma função essencial. A ausência de uma pessoa pode comprometer o caixa, o recebimento de mercadorias, o atendimento ou a abertura da loja. Além disso, negócios que funcionam seis ou sete dias por semana poderão precisar reorganizar turnos, contratar, pagar horas extras, reduzir horários ou transferir ainda mais responsabilidades ao proprietário.
Esse cenário recomenda uma discussão que vá além das compensações financeiras e das exceções legais. É necessário refletir sobre como a tecnologia pode ajudar o pequeno empresário a produzir melhor, eliminar desperdícios e organizar sua operação. A adaptação à nova jornada não deveria ser tratada apenas como um problema de escala de trabalho, mas como uma oportunidade para elevar a produtividade e a maturidade gerencial de milhares de empresas.
Uma possibilidade seria desenvolver uma plataforma de produtividade e resiliência para pequenas empresas. Não se trata, neste momento, de um produto validado, mas de uma ideia que merece ser examinada pelo setor empresarial. A ferramenta poderia diagnosticar o impacto da jornada de 40 horas, simular diferentes escalas, calcular custos, identificar horários pouco rentáveis e estimar se seria mais vantajoso contratar, automatizar determinadas tarefas ou reduzir períodos de funcionamento.
A plataforma também poderia utilizar inteligência artificial para prever o movimento de clientes, sugerir a quantidade necessária de trabalhadores por turno e apontar pontos frágeis da operação. Se apenas uma pessoa souber fechar o caixa, receber mercadorias ou emitir determinados documentos, o sistema identificaria o risco e recomendaria treinamento. Explicações gravadas pelo empresário poderiam ser transformadas em procedimentos, listas de verificação e pequenos módulos de capacitação para os empregados.
Outros recursos poderiam incluir atendimento automatizado pelo WhatsApp, agendamento, pedidos antecipados, integração entre loja física e canais digitais, controle de estoque, automação de cobranças e relatórios de produtividade. O principal indicador não seria apenas o número de horas trabalhadas, mas a margem gerada por hora, o tempo de espera dos clientes, a ociosidade dos turnos, as vendas por empregado e a capacidade de a empresa continuar funcionando sem depender permanentemente da presença do proprietário.
A construção de uma solução dessa natureza exigiria conhecimento tecnológico, trabalhista e empresarial, além de testes em diferentes atividades do comércio e dos serviços. Para alcançar os menores negócios, teria de ser simples, acessível pelo celular, integrada aos sistemas já utilizados e oferecida a um custo reduzido. Uma iniciativa coordenada por entidades representativas e serviços de apoio às empresas, em conjunto com institutos de pesquisa, desenvolvimento e inovação, poderia permitir o desenvolvimento coletivo, a realização de projetos-piloto e a disponibilização da ferramenta em condições que uma microempresa, isoladamente, dificilmente conseguiria contratar.
Independentemente do resultado final da discussão legislativa, o debate já revelou uma necessidade permanente: melhorar a produtividade dos pequenos negócios. As entidades de classes, dos três setores da economia, possuem uma oportunidade para discutir que instrumentos poderão apoiar essa transformação. Uma plataforma compartilhada, eventualmente oferecida como serviço de apoio empresarial, não eliminaria todos os custos da mudança, mas poderia impedir que a modernização do trabalho aprofundasse a distância entre as grandes redes e os pequenos empreendedores.