Sinais de resistência na economia

Sinais de resistência na economia

Por Dr. Max Cohen, economista da Fecomércio-AM

A economia do Amazonas chega ao fim do primeiro semestre de 2026 combinando sinais de resistência com perda de fôlego em atividades relevantes. O quadro não é de ruptura, mas de desaceleração desigual. O Produto Interno Bruto estadual cresceu 7,13% no primeiro trimestre ante igual período de 2025, enquanto comércio e serviços avançaram 8,09% e responderam por 46,32% da economia. Ao mesmo tempo, os indicadores mensais mais recentes mostram enfraquecimento do varejo, dos serviços e do turismo, sugerindo que o bom desempenho acumulado convive com uma conjuntura mais difícil no curto prazo.

No comércio varejista, segundo dados do IBGE, o volume de vendas caiu 2,8% em maio frente a abril e 4,5% na comparação anual. O acumulado de janeiro a maio passou a registrar retração de 0,8%, e o índice em 12 meses recuou para -0,5%. O varejo ampliado também perdeu força, com queda mensal de 1,7% e anual de 3,2%, embora ainda preserve crescimento de 1,4% no ano. A leitura conjunta indica redução do impulso de consumo, sobretudo nas compras mais dependentes de crédito, num ambiente em que a Selic permanece em 14,25% ao ano e a curva de juros não sinaliza alívio expressivo no horizonte imediato.

Os serviços apresentaram avanço de apenas 0,4% em maio, insuficiente para compensar a queda de 9,5% em relação ao mesmo mês de 2025. No acumulado do ano, a retração atingiu 5,5%, enquanto o indicador em 12 meses caiu para -4,8%. O turismo seguiu trajetória semelhante: recuo mensal de 0,9%, queda anual de 11,2% e reversão do acumulado do ano para -1,6%. Ainda que o resultado em 12 meses permaneça positivo, em 6,3%, a desaceleração contínua exige atenção, especialmente por seus efeitos sobre hotelaria, alimentação, transporte e comércio associado ao fluxo de visitantes.

Apesar desse ambiente, o mercado de trabalho continua funcionando como importante fator de sustentação da renda. Segundo o CAGED, o segmento do comércio e serviços alcançaram 391.451 empregos formais em maio, recorde da série, com saldo positivo de 956 vagas no mês e crescimento de 1,5% frente a dezembro/25. O segmento concentra 68,4% dos empregos formais do estado. Também chama atenção a expansão do número de empresas: em julho, a JUCEA-AM registrava 892.351 negócios, dos quais 773.638 em comércio e serviços. O crescimento mensal de 0,72% mostra vitalidade empreendedora, embora parte dessa expansão também possa refletir busca por alternativas de renda em um mercado de trabalho mais flexível e competitivo.

Os indicadores de confiança da CNC revelam uma economia em duas velocidades. O ICEC (Índice de Confiança do Empresário do Comércio) avançou para 115,6 pontos em junho, mantendo os empresários em zona de otimismo, e as expectativas para as próprias empresas permanecem elevadas. Entretanto, a avaliação das condições atuais ainda é negativa, especialmente em relação à economia brasileira e ao desempenho corrente do comércio. Entre as famílias, o ICF (Índice do Consumo das Famílias) alcançou 126,4 pontos, sustentado pela segurança no emprego, pela renda e pelas perspectivas profissionais. Contudo, o consumo atual perdeu intensidade, a perspectiva de consumo recuou e o momento para aquisição de bens duráveis permaneceu abaixo da neutralidade.

A principal limitação continua sendo financeira. Embora o endividamento e a inadimplência tenham apresentado leve melhora mensal, 88,3% das famílias estão endividadas e 49,6% possuem contas em atraso. Quase metade dos inadimplentes acumula atrasos superiores a 90 dias, e o comprometimento médio com dívidas alcança 6,6 meses. Ao mesmo tempo, a cesta básica subiu 1,27% em maio, pressionada por pão, legumes, feijão e carne bovina, segundo pesquisa da FGV. A desaceleração do IPCA nacional para 0,16% em junho e a valorização moderada do real ajudam a reduzir parte das pressões, mas não eliminam o peso dos juros altos e dos custos logísticos sobre o orçamento local.

A arrecadação de ICMS do comércio e serviços cresceu 4,0% em junho na comparação anual e atingiu R$ 816 milhões, mostrando resiliência da base econômica. No semestre, porém, ainda acumula queda real de 2,1%. Para os próximos meses, o cenário mais provável é de crescimento moderado, consumo seletivo e recuperação lenta. Aos empresários, a orientação estratégica é preservar caixa, controlar estoques com maior precisão, segmentar ofertas por faixa de renda e priorizar investimentos que elevem produtividade, eficiência logística e uso de dados. O ambiente ainda oferece oportunidades, mas premiará menos a expansão indiscriminada e mais a capacidade de adaptar preços, crédito, canais e mix de produtos à nova cautela do consumidor.