Sem comércio, a economia para

Sem comércio, a economia para

Por Max Cohen, economista da Fecomércio-AM

A escalada geopolítica envolvendo o Irã recoloca no centro do debate econômico um tema clássico, muitas vezes subestimado em períodos de euforia tecnológica: a centralidade do comércio. À primeira vista, o conflito parece restrito ao mercado de energia e às tensões internacionais. No entanto, como destaca análise recente do Financial Times, seus efeitos atingem diretamente a base da chamada nova economia - incluindo a inteligência artificial - e revelam que, sem o funcionamento pleno das cadeias de circulação de bens e serviços, o crescimento simplesmente não se sustenta.

A inteligência artificial, frequentemente tratada como uma revolução puramente digital, depende, na prática, de uma infraestrutura física complexa: energia abundante, logística eficiente e cadeias globais integradas. A produção de semicondutores, o funcionamento de data centers e a própria difusão tecnológica passam necessariamente por fluxos comerciais contínuos. Quando esses fluxos são interrompidos - seja por choques geopolíticos, aumento de custos energéticos ou disrupções logísticas - toda a engrenagem desacelera. Nesse contexto, o comércio deixa de ser apenas um setor e passa a ser a espinha dorsal do sistema econômico.

Os impactos desse tipo de choque são rapidamente percebidos no cotidiano empresarial. A elevação dos custos de energia encarece o transporte, reduz margens e pressiona preços ao consumidor. Ao mesmo tempo, a incerteza global leva empresas a adiar investimentos, afetando a demanda por bens e serviços. O comércio, especialmente em regiões como o Amazonas, é o primeiro a sentir esses efeitos - mas também é o principal canal de resposta, ajustando preços, recompondo estoques e mantendo o fluxo econômico ativo.

Mais do que um setor de intermediação, o comércio e os serviços assumem papel estratégico na difusão da inovação. É por meio deles que tecnologias como a inteligência artificial chegam ao mercado, transformam processos, aumentam produtividade e geram valor. Se o ambiente global limita investimentos em IA - seja por custo de energia ou restrições logísticas -, o impacto final recai sobre a capacidade do comércio de se modernizar e de ampliar sua eficiência. Em outras palavras, não há economia digital sem uma base comercial robusta.

No caso do Amazonas, essa realidade é ainda mais evidente. Com forte predominância do segmento do comércio e serviços na geração de emprego e renda, qualquer choque externo tende a se manifestar de forma rápida na atividade local. Por outro lado, é justamente nesses setores que reside a maior capacidade de adaptação: seja pela incorporação de tecnologias, seja pela reorganização de cadeias de suprimento ou pela aproximação com o consumidor. O comércio local não apenas reage - ele sustenta a dinâmica econômica.

A principal lição que emerge desse cenário é: em um mundo cada vez mais tecnológico, os fundamentos permanecem. Energia, logística e circulação de bens continuam sendo determinantes. Para os empresários do comércio, o momento exige atenção à eficiência operacional, gestão de custos e, sobretudo, visão estratégica para incorporar tecnologia como instrumento de competitividade. Afinal, a inteligência artificial pode transformar mercados - mas é o comércio que garante que essa transformação chegue à economia real.