O enfrentamento da mortalidade de Motociclistas no trânsito

O enfrentamento da mortalidade de Motociclistas no trânsito

Por Manoel de Castro Paiva - Engenheiro especialista em Mobilidade Urbana

Relatório do Ipea e FBSP aponta que expansão da economia de aplicativos aumentou a exposição de motociclistas ao risco letal nas cidades brasileiras. A motocicleta deixou de ser apenas um meio de transporte para se tornar ferramenta de sobrevivência econômica de milhões de brasileiros — e essa transformação já aparece nas estatísticas da violência no trânsito. O alerta está no Atlas da Violência 2026, divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), que relaciona o crescimento das mortes de motociclistas à expansão da economia de aplicativos e à precarização do trabalho urbano.

Conforme o levantamento, o Brasil registrou 37.150 mortes no trânsito em 2024. As motocicletas estiveram envolvidas em 41,6% desses óbitos. Entre 2019 e 2024, as mortes em sinistros com motos cresceram 38%, passando de 11.182 para 15.459 vítimas fatais. A análise epidemiológica dos óbitos por ATT no estado do Amazonas, durante o ano de 2026, revela uma distribuição heterogênea das fatalidades conforme a categoria ou condição da vítima.

Observa-se que mais da metade dos óbitos por ATT foram registrados entre os motociclistas, totalizando 8.826 (65,0%). Este achado destaca a vulnerabilidade desse grupo populacional e a necessidade de medidas específicas para mitigar os riscos associados aos acidentes de moto. De janeiro a 10 de junho do corrente ano, o sistema público de saúde em nossa capital atendeu 15.309 pessoas vítimas de sinistros de trânsito, representando a triste média de 84,0/dia nesse período.

As UTI’s dos hospitais então lotadas de motociclistas vítimas dos acidentes de trânsito, as clínicas de recuperação também estão com ocupação acima de 70,0%, com sequelados dos acidentes com motos, isto é uma tragédia! Isso tem um custo enorme para a rede pública de saúde! Em todo país, os atendimentos de emergências de motociclistas vítimas de acidentes de trânsito, dispararam nos últimos anos, de cada 10 pacientes que chegam a emergência, 6 caíram de moto, aos fins de semana os casos aumentam. A maioria são homens, jovens e adolescentes menores que dirigem motos sem habilitação. Acidentes provocados por imprudência (não usam capacete, não seguem as regras de trânsito e alcoolizados). Para os pesquisadores, fatores como jornadas extensas, pressão por produtividade e ausência de proteção social transformaram trabalhadores de aplicativos em um dos grupos mais expostos ao risco letal no cotidiano urbano.

É uma contradição estarrecedora em que o Estado subsidia motos para motoboys (via Move Motos) ao mesmo tempo em que essas motos matam 15 mil brasileiros por ano. Cada permuta de moto financiada encarece o SUS e sobrecarrega o sistema de saúde.

A elevada mortalidade de motociclistas no trânsito de Manaus não constitui um fenômeno novo nem inesperado. Trata-se de um problema estrutural, amplamente conhecido, associado ao crescimento desordenado da frota, à precarização do trabalho sobre duas rodas, à permissividade institucional quanto ao excesso de velocidade e à fragilidade do sistema de fiscalização. Apesar disso, não se observou, historicamente, empenho político equivalente na consolidação de uma política integrada de mobilidade urbana, capaz de articular transporte coletivo, gestão da circulação, segurança viária e ordenamento do uso do solo.

De acordo com o especialista em motocicletas Koji Maehara, da associação japonesa dos fabricantes de veículos, o Brasil precisa de uma abordagem multidisciplinar para reduzir os números de sinistros de trânsito, principalmente com motocicletas. Um dos maiores problemas apontados pelo especialista japonês está a fraca formação dos condutores. “A pista é muito pequena, a velocidade baixa demais e os motociclistas nem aprendem a trocar de marcha, usam só a primeira”, e reafirma a importância de uma fiscalização rigorosa com multas pesadas como forma de educar os condutores, é preciso aprimorar o currículo na formação dos motociclistas. É preciso também, melhorar a infraestrutura, a sinalização, a educação, a fiscalização e a repressão. Tudo combinado.

Tramita na Câmara Municipal de Manaus um Projeto de Lei sobre a criação de moto faixas em vias de grande fluxo e regulamenta a circulação de motocicletas, motonetas e ciclomotores nos corredores entre faixas de rolamento nas vias públicas do Município de Manaus, baseando-se no modelo desenvolvido na capital paulista, justificada como um modelo para baixar os alarmantes índices de sinistros e de vítimas fatais.

A Faixa Azul ou Moto Faixa surge menos como resultado de diagnóstico técnico aprofundado e mais como resposta política imediatista, fortemente influenciada por experiências externas ainda inconclusivas e por agendas de visibilidade pública. A importação acrítica de modelos testados em outras cidades, como São Paulo, desconsidera diferenças fundamentais na morfologia urbana, na capacidade institucional e na estrutura do sistema viário de Manaus. Mais grave, ignora os próprios resultados parciais dessas experiências, que não demonstram redução consistente da mortalidade e indicam aumento de conflitos em interseções e maior exposição de pedestres ao risco.

A centralidade política conferida à Faixa Azul revela uma inversão de prioridades. Enquanto se debate a criação de novas infraestruturas exclusivas para motocicletas, permanecem não enfrentados problemas estruturais, como:

•a baixa qualidade e a perda de atratividade do transporte coletivo;

•a inexistência de uma política contínua de controle e redução de velocidades;

•a fragilidade da fiscalização eletrônica e presencial;

•a ausência de requalificação sistemática de interseções críticas;

•a falta de integração entre planejamento urbano e mobilidade.

Essa dissociação entre discurso e prática evidencia que o problema da segurança viária tem sido tratado de forma episódica, sem articulação com uma política pública abrangente. A ênfase na Faixa Azul tende a deslocar o debate do núcleo do problema, que não reside na ausência de segregação espacial para motocicletas, mas na forma como o espaço viário é historicamente produzido, regulado e operado na cidade.

Do ponto de vista técnico, a implantação de faixas exclusivas em um sistema viário caracterizado por múltiplas funções simultâneas, elevado número de acessos e escasso controle operacional tende a induzir aumento da velocidade, ampliar comportamentos de risco e redistribuir acidentes, em vez de reduzi-los. Do ponto de vista político-institucional, a proposta revela um padrão de atuação marcado pela busca de soluções visíveis e de curto prazo, sem o enfrentamento das condições estruturais que sustentam a violência no trânsito.

O enfrentamento da mortalidade no trânsito exige políticas integradas, continuidade institucional, capacidade técnica e compromisso político com a reorganização do sistema de mobilidade como um todo, e não a adoção isolada de medidas de alto apelo público e baixa sustentação estrutural.