Por Max Cohen, economista de Fecomércio-AM
Os dados de março de 2026 das pesquisas da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo para Manaus revelam uma mudança qualitativa relevante no ambiente econômico local. Se em fevereiro o cenário era de avanço sob tensão, em março começa a se delinear um descompasso mais claro entre empresários e consumidores. A economia segue em movimento, mas os vetores que sustentam esse movimento passam a operar em direções distintas, elevando o risco de maior desaceleração no curto prazo.
Pelo lado empresarial, o Índice de Confiança do Empresário do Comércio (ICEC) permanece em patamar elevado, com 118,3 pontos, mantendo-se em zona de otimismo. No entanto, diferentemente do mês anterior, quando havia avanço, o indicador registra leve recuo mensal, sinalizando perda de fôlego na margem. Ainda que a comparação anual siga positiva, a acomodação recente indica que o ciclo de confiança pode estar entrando em fase de estabilização. Mais importante, persiste a divergência entre expectativas elevadas e condições atuais ainda frágeis, especialmente no que se refere à percepção sobre a economia.
A análise interna do ICEC reforça essa leitura. As expectativas seguem robustas, refletindo a crença em melhora futura, mas os indicadores ligados à ação - como investimento e contratação - mostram arrefecimento no curto prazo. Isso sugere que o empresariado ainda está disposto a expandir, mas com maior cautela. Em outras palavras, o otimismo permanece, porém menos traduzido em decisões concretas, o que é típico de momentos de transição no ciclo econômico.
Do lado das famílias, o movimento é mais claro e consistente. O Índice de Intenção de Consumo das Famílias (ICF) recua pelo segundo mês consecutivo, atingindo 121,3 pontos. Embora ainda acima da linha de satisfação, o indicador evidencia perda contínua de dinamismo. O principal vetor dessa deterioração é o crédito, cuja percepção segue em queda e já se posiciona em zona negativa. Além disso, há piora nas perspectivas de consumo e no momento para aquisição de bens duráveis, indicando maior cautela nas decisões de gasto.
Esse comportamento encontra respaldo no quadro financeiro das famílias. A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC) mostra que 87,8% das famílias permanecem endividadas, com quase metade apresentando contas em atraso. Ainda que os indicadores tenham mostrado leve acomodação na margem, o nível permanece elevado, configurando um ambiente de restrição estrutural. Em outras palavras, o problema deixou de ser apenas de deterioração recente e passou a ser de persistência em patamar crítico, limitando a capacidade de expansão do consumo.
A leitura conjunta dos indicadores aponta para uma economia em processo de desalinhamento. O empresário segue confiante e com expectativas positivas, enquanto o consumidor enfrenta restrições crescentes de crédito e orçamento. Esse descompasso tende a reduzir a efetividade das decisões de investimento e ampliar o risco de frustração no desempenho do comércio, especialmente nos segmentos mais dependentes de financiamento. Para os próximos meses, o cenário sugere a continuidade do crescimento mais seletivo e condicionado. A sustentação do consumo dependerá, cada vez mais, da evolução do mercado de trabalho e das condições de crédito. Para o empresariado, o momento continua a exigir disciplina estratégica: calibrar expansão, reforçar gestão de risco e priorizar eficiência. O motor da economia continua funcionando, mas a sustentação da velocidade dependerá da recomposição do equilíbrio entre confiança e capacidade de consumo.