​O Centro de Manaus e o futuro que precisamos construir

​O Centro de Manaus e o futuro que precisamos construir

Por José Roberto Tadros - Presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) e Presidente da Fecomércio Amazonas

O incêndio que atingiu recentemente o antigo prédio do Banco da Amazônia, na Avenida Sete de Setembro, trouxe novamente ao debate uma preocupação que há muito tempo acompanha quem conhece, vive e trabalha em Manaus: o futuro do nosso Centro Histórico.

Não estamos falando de uma região qualquer da cidade. Foi às margens do Rio Negro, nesse território que hoje chamamos de Centro Histórico, que Manaus começou a se formar. Ali estão edificações, ruas e espaços que atravessaram diferentes momentos do desenvolvimento da capital e que ajudam a contar nossa história. O Centro guarda parte importante da memória econômica, social e cultural do Amazonas.

Como amazonense e empresário, acredito que precisamos olhar para essa realidade não apenas com preocupação, mas com disposição para construir soluções. E essa não é uma responsabilidade que possa ser atribuída a uma única instituição ou esfera de governo. O próprio cenário encontrado na região envolve patrimônios públicos e privados e competências da União, do Estado e do Município. É, portanto, um desafio coletivo.

Preservar o Centro não pode significar apenas conservar fachadas. Patrimônio preservado precisa ter vida. Precisamos criar condições para que imóveis históricos possam ser recuperados, ocupados e utilizados por empresas, serviços, atividades culturais, empreendimentos turísticos e também por moradores.

Esse é um ponto fundamental. Uma cidade preserva sua história quando mantém viva a relação das pessoas com seus espaços. Quando uma região perde moradores, trabalhadores, consumidores, empresas e visitantes, inicia-se um processo de esvaziamento que afeta não apenas a economia, mas também a segurança, a conservação e a própria identidade urbana.

Por isso, preservação e desenvolvimento não podem ser tratados como interesses opostos.

O comércio tem uma relação histórica com o Centro de Manaus. Durante décadas, foi ali que gerações de amazonenses trabalharam, empreenderam, fizeram compras e construíram negócios. Ainda hoje, milhares de empresas e trabalhadores dependem da vitalidade econômica dessa região.

Essa discussão ganha ainda mais relevância quando observamos o peso do setor terciário na economia amazonense. Comércio, serviços e turismo representam, juntos, 41,5% do PIB estadual, mais de 345 mil empregos formais e mais de 80 mil estabelecimentos. Somente o comércio reúne mais de 133 mil trabalhadores formais e 43 mil estabelecimentos no Amazonas.

Não podemos, portanto, discutir o futuro do Centro sem considerar sua vocação econômica.

É necessário tornar a recuperação dos imóveis mais viável, discutir incentivos para quem preserva e ocupa o patrimônio e buscar maior integração entre os órgãos responsáveis pelos processos de intervenção e recuperação.

Mas nenhuma revitalização será completa sem segurança, mobilidade, iluminação, ordenamento urbano e condições para que as pessoas voltem a ocupar esses espaços. Não basta recuperar prédios. É preciso recuperar a confiança das pessoas em estar, circular, trabalhar, investir e viver no Centro.

Manaus possui ativos que muitas cidades gostariam de ter. Temos história, arquitetura, cultura, comércio e uma localização privilegiada às margens do Rio Negro. O que precisamos é transformar essas potencialidades em uma visão compartilhada de futuro.

O incêndio no antigo prédio do Banco da Amazônia não deve ser apenas mais um episódio a lamentar. Pode ser também um chamado para que poder público, iniciativa privada, órgãos de preservação e sociedade se reúnam em torno de uma agenda permanente para o Centro Histórico.

Não se trata de encontrar culpados. Trata-se de encontrar caminhos.

O Centro de Manaus faz parte da nossa história, mas não pode pertencer apenas ao passado. Preservá-lo significa manter viva uma parte essencial da identidade da cidade e, ao mesmo tempo, criar condições para que continue gerando encontros, oportunidades, negócios, cultura, turismo e desenvolvimento para as próximas gerações.