Por Max Cohen, economista da Fecomércio-AM
A inteligência artificial entrou de vez no vocabulário empresarial, mas é um erro tratá-la como “tema de TI” ou modismo passageiro. O ponto central — e que muitas organizações ainda subestimam — é que IA não é sobre tecnologia: é sobre como pessoas e empresas tomam decisões, produzem mais e permanecem relevantes . A IA generativa (como o ChatGPT) acelerou essa discussão ao democratizar o acesso, mas o ganho real não está em “brincar com prompts”: está em construir cultura, processo e disciplina para capturar produtividade com segurança e consistência dentro do negócio.
Para o comércio e serviços em Manaus, essa agenda é especialmente prática. O setor vive de margem, velocidade de resposta e qualidade de atendimento — e, por isso, sofre quando a operação é consumida por tarefas repetitivas: e-mails, propostas, cotações, relatórios, mensagens a clientes, padronização de documentos, análise de contratos, rotinas administrativas e treinamento de equipes. A IA pode atuar como “motor de eficiência” nessas frentes, resumindo, classificando, analisando, explicando e padronizando conteúdos, liberando tempo do gestor e da equipe para o que realmente gera valor: relacionamento, negociação, gestão comercial e melhoria do serviço .
O primeiro salto de produtividade vem da organização do escritório . Em vez de tratar IA como “chat”, empresas podem adotar rotinas objetivas: gerar sumários executivos de documentos e notícias setoriais; transformar reuniões em atas e próximos passos; classificar chamados e demandas por área; comparar desempenho por indicadores; analisar feedback de clientes; revisar textos institucionais e padronizar comunicações. Em ferramentas já disponíveis — como ChatGPT, Grok, Gemini, Copilot do Microsoft 365, Notion AI e automações com agentes — isso reduz retrabalho e aumenta consistência, especialmente em empresas com equipes distribuídas, turnos e alto volume de comunicação com clientes.
Mas a IA também exige maturidade gerencial. Há uma lacuna clara entre usar e confiar : muitas organizações testam, porém poucas escalam. Para avançar, o empresário precisa encarar a IA como parte da estratégia digital — com metas claras (reduzir custo, acelerar resposta, melhorar decisão, elevar padrão de qualidade), escolha de casos de uso e um pequeno portfólio de “miniprojetos” por área. Começa-se pela fase de engenharia de prompt e evolui-se para a fase de integração com sistemas internos , onde a IA passa a responder com base em dados reais da empresa (por exemplo, políticas internas, catálogo de serviços, base de contratos, histórico de atendimentos), em vez de respostas genéricas.
Atenção: produtividade sem governança vira risco. Deve-se alertar para ética e proteção de dados (leia-se LGPD). Em linguagem direta, a regra é simples: se você não enviaria aquele conteúdo para alguém fora da empresa por e-mail, não envie para uma IA aberta . Isso inclui dados pessoais sensíveis, informações de clientes e fornecedores, dados financeiros estratégicos e documentos sigilosos. Além disso, há riscos de “alucinação” (a IA escrever algo convincente, porém errado), viés e erros regulatórios. O caminho responsável é definir ferramentas autorizadas, treinar a equipe, criar prompts corporativos padronizados, exigir revisão humana e deixar claro que a IA não substitui o julgamento profissional .
Para empresários do comércio e serviços em Manaus, a mensagem final é pragmática: IA não é um “departamento”, é um novo jeito de trabalhar . Quem começar agora, com foco em produtividade interna e atendimento, colherá ganhos rápidos — e criará uma base cultural para avançar, depois, para análise de dados e decisões melhores. O que separa empresas vencedoras não será “quem usa ChatGPT”, mas quem transforma IA em rotina, padrão e vantagem competitiva , com processos bem desenhados, times capacitados e segurança da informação tratada como ativo estratégico.