Por Manoel de Castro Paiva – especialista em mobilidade urbana
Manaus nos últimos dias protagonizou na zona norte, em frente a duas escolas públicas, atropelamentos e morte de estudantes adolescentes, uma tragédia prevista e violenta. Em várias escolas públicas e privadas, espalhadas em todas as zonas de nossa cidade, retratam diariamente o caos que espelha o desleixo, o descaso e omissão de todos os envolvidos de planejar, implantar, monitorar, educar, fiscalizar e mitigar a total insegurança viária no entorno dos estabelecimentos de ensino .
As lesões por ocorrências de trânsito estão entre as principais causas de mortes de crianças entre 5 e 14 anos. Esses casos podem ser prevenidos com um conjunto coerente de medidas que incluem ações para fortalecer o planejamento e a gestão da segurança viária, adequar a infraestrutura com prioridade para proteger pedestres, e promover comportamentos mais seguros.
O Brasil, infelizmente, ostenta altos índices de sinistros de trânsito e uma das explicações para esse cenário está no comportamento inadequado e inseguro de brasileiros no trânsito urbano e em rodovias. Daí a importância de levar o debate sobre segurança viária e transporte seguro para dentro da sala de aula. Nós apostamos na educação como um caminho seguro e viável para a transformação da convivência nos espaços públicos.
Nas 20 maiores cidades brasileiras, cerca de 1,3 milhão de crianças entre 0 e 5 anos de idade precisam caminhar mais de 15 minutos para acessar uma escola pública de ensino infantil.
Em Manaus, Belo Horizonte, Brasília, Maceió́, Porto Alegre, São Gonçalo e São Luís mais da metade da populaç ã o nessa idade precisa caminhar mais de 30 minutos para acessar uma escola pública .
O deslocamento para a escola é majoritariamente realizado por caminhada. Na primeira infância e nos primeiros anos do ensino fundamental, a maioria dos deslocamentos para as escolas é realizado na companhia da família.
Os entornos das escolas precisam de atenç ã o para se tornarem ambientes mais seguros e saudáveis, fomentando interações positivas entre crianças e cuidadores que contribuem para o desenvolvimento infantil.
Os caminhos para a mobilidade urbana sustentável e segura exigem lidar com políticas urbanas integradas, com visão sistêmica, interdisciplinar, intersetoriais e intersecretariais. Isso porque a pauta da mobilidade é transversal a muitas outras. Nós procuramos abordar o conceito da mobilidade de uma forma dinâmica, mostrando a evolução do sentido que o termo “mobilidade urbana” vem ganhando. Apresentamos os modos ativos - a pé, por bicicleta - e sua relação com a acessibilidade, a saúde pública e a justiça climática, no sentido de pertencimento e direito à cidade.
Tratamos dos deslocamentos na cidade também como uma forma de ocupação do espaço urbano e de convivência social. Desta forma, apresentamos as cidades como lugares para se estar, para viver, e as ruas como espaços públicos que integram várias funções e usos. Temos que abordar as vias urbanas para além do ponto de vista da circulação e segurança dos meios de transporte.
Então, o desestímulo ao transporte individual é tratado por meio de dados, referências e evidências que apresentam os impactos negativos socioambientais do sistema que privilegia os carros. Há também propostas de atividades que levantam estratégias que abrem espaço para a migração de modal, a partir do desestímulo ao uso do automóvel e estímulo ao transporte público e ativo e, consequentemente, trazem melhorias na mobilidade, na cidade e para a sociedade.
Temos que promover e estimular um programa está voltado para a capacitação de educadores que desenvolvem trabalhos escolares em sala de aula porque reconhece o papel do professor no processo educacional e de formação de cidadãos mais conscientes. Assim, em primeiro lugar procura mudar a forma como os alunos e os próprios professores se relacionam com o trânsito no entorno das escolas onde é realizado. Junto com eles, buscamos melhorar as condições de circulação viária e a transformação das ruas em espaços de convivência e cidadania. E os professores são os atores principais dessa iniciativa.
As melhorias das condições viárias devem conter ao longo do trajeto, implantação de novas faixas de pedestres e ampliadas as áreas de circulação, com alargamento e nivelamento de calçadas por meio do urbanismo tático. A velocidade da via deverá ser sinalizada reforçando o limite de 30 km/h, por se tratar de área escolar. Também devem ser implementados elementos redutores de velocidade, como o estreitamento das faixas de rolamento, encurtando as travessias de pedestres e a Faixa Elevada nas portas das escolas, garantindo mais segurança para os pedestres, porque obriga o motorista a reduzir a velocidade. Outro ponto que destacamos é o nivelamento entre as calçadas e a passagem. “É uma medida simples que garante melhorias na acessibilidade e traz mais conforto e segurança nas vias públicas. Os motoristas têm maior visibilidade dos pedestres que atravessam em frente a escolas e hospitais. Além disso, são travessias muito usadas por idosos, pessoas om baixa mobilidade, crianças e jovens”.
A adoção de um Sistema Seguro para o entorno de nossas escolas, parte da premissa de que a segurança no trânsito resulta da conjunção de diversos fatores, e que a responsabilidade deve ser compartilhada entre todos os atores do ecossistema de trânsito, de forma integrada e proativa, para mitigar a gravidade dos sinistros. Pelo princípio da Visão Zero onde estabelece que nenhuma morte ou lesão grave no trânsito é aceitável, já que falhas humanas, estas sim inevitáveis, podem ser antecipadas e prevenidas .