Por Dr. Max Cohen, economista da Fecomércio-AM
A inteligência artificial já produz efeitos econômicos relevantes, mas de forma diferente daquela imaginada nos primeiros discursos sobre automação em massa. Até aqui, os sinais mais claros não apontam para um colapso imediato do emprego, e sim para uma profunda reorganização das empresas, dos investimentos e da distribuição dos ganhos econômicos. A transformação já começou, mas seus impactos aparecem mais na estrutura do capitalismo do que em uma explosão de desemprego no curto prazo.
Os dados mais recentes do Federal Reserve de Nova York ajudam a enfraquecer a narrativa de uma destruição generalizada de vagas causada pela IA. O mercado de trabalho ainda não mostra evidência robusta de queda abrupta da demanda por trabalhadores nos Estados Unidos. O que já pode ser observado, porém, é uma mudança na composição das funções dentro das empresas. Grandes grupos de tecnologia, como a Cisco, passaram a reduzir quadros administrativos e níveis intermediários de gestão para direcionar mais recursos a investimentos em inteligência artificial, automação e infraestrutura digital.
Na prática, isso significa que a IA está alterando menos a quantidade total de empregos e mais o perfil das carreiras e das organizações. Empresas buscam estruturas mais enxutas, com menos camadas hierárquicas e maior integração entre tecnologia e decisão. Ao mesmo tempo, cresce a demanda por profissionais capazes de implementar, supervisionar e operar sistemas de IA. Surge, assim, uma divisão cada vez mais clara entre trabalhadores que utilizam IA para ampliar produtividade e aqueles que passam a ser monitorados e coordenados por sistemas algorítmicos.
Outro aspecto importante é que a inteligência artificial deixou de ser apenas uma história ligada a software e semicondutores. A expansão dos datacenters, do consumo de energia elétrica e dos sistemas de refrigeração mostra que a IA está impulsionando uma nova onda de investimentos em infraestrutura física. O mundo digital tornou-se altamente dependente do mundo real. Energia, redes elétricas, equipamentos industriais e capacidade computacional passaram a ocupar posição estratégica dentro da economia global.
Esse movimento ajuda a explicar por que o atual ciclo tecnológico vem sustentando crescimento econômico, bolsas de valores e grandes investimentos, mesmo em um cenário de renda pressionada para muitas famílias. Há um descolamento crescente entre a prosperidade dos ativos financeiros e a percepção econômica da população. Enquanto empresas de tecnologia e fornecedores estratégicos concentram ganhos expressivos, consumidores ainda convivem com inflação, custo de vida elevado e insegurança econômica.
Ao mesmo tempo, a nova economia da IA amplia riscos de concentração. Os maiores ganhos tendem a ficar nas mãos de grandes plataformas, empresas com acesso a infraestrutura computacional e grupos capazes de financiar investimentos bilionários. Além disso, cresce o custo defensivo do sistema: cibersegurança, regulação, proteção de dados e disputas judiciais passam a fazer parte do custo estrutural da nova economia digital. A IA aumenta eficiência, mas também amplia riscos institucionais e geopolíticos.
A principal lição deste momento é que a inteligência artificial não está simplesmente substituindo trabalhadores. Ela está reorganizando empresas, cadeias produtivas e relações de poder econômico. A disputa central do novo ciclo não será apenas tecnológica, mas também econômica e institucional. Quem controlar computação, energia, dados e capacidade de investimento terá vantagem crescente. O desafio das próximas décadas será transformar esse avanço tecnológico em prosperidade mais ampla e menos concentrada. E você? O que você está planejando fazer com IA na sua empresa?