Entre o acelerador e o freio

Entre o acelerador e o freio

Por Max Cohen, economista da Fecomércio-AM.

Os dados de fevereiro de 2026 das pesquisas da Confederação Nacional do Comércio (CNC) para Manaus revelam uma economia que avança, mas sob tensão. De um lado, o Índice de Confiança do Empresário do Comércio (ICEC) permanece em zona de otimismo, com 119,1 pontos, alta mensal de +0,7% e crescimento anual de +3,2%. De outro, a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC) mostra aumento contínuo do comprometimento financeiro das famílias, enquanto o Índice de Intenção de Consumo das Famílias (ICF) sinaliza desaceleração no curto prazo. O cenário atual pode ser descrito como um veículo em movimento: o motor está ligado, mas o freio está parcialmente acionado.

Pelo lado empresarial, a confiança segue robusta. O ICEC mostra melhora consistente das condições atuais, com alta anual de +7,0% no Índice de Condições Atuais do Empresário do Comércio (ICAEC) e avanço expressivo de +11,9% nas Condições Atuais das Empresas Comerciais (CAEC). A disposição para investir também permanece positiva, com o Índice de Investimento do Empresário do Comércio (IIEC) crescendo +4,6% em relação a fevereiro de 2025. Ainda que haja pequena acomodação nas expectativas no curto prazo, o empresário manauara inicia o ano com postura construtiva e planos de expansão moderada.

Já o consumidor apresenta comportamento mais ambíguo. O ICF permanece em patamar elevado, com 123,3 pontos — acima da linha de satisfação — e superior ao nível de fevereiro de 2025. Emprego e renda seguem como pilares de sustentação: a Situação Atual do Emprego está em 143,0 pontos, e a Perspectiva Profissional atinge 158,4 pontos. No entanto, a queda mensal de -2,9% no ICF e o recuo de -7,4% na percepção de acesso ao crédito indicam maior cautela no curto prazo. O consumo não está retraindo estruturalmente, mas perdeu parte do ímpeto observado no início do ano.

O ponto de maior fragilidade está no quadro financeiro das famílias. A PEIC mostra que 88,2% das famílias estão endividadas, acima dos 87,2% de janeiro e dos 83,3% de fevereiro do ano passado. A inadimplência alcança 50,0% dos entrevistados, com crescimento tanto mensal quanto anual, enquanto 18,5% afirmam não ter condições de pagar suas dívidas em atraso. Além disso, 35,9% comprometem mais de 50% da renda mensal com dívidas. Trata-se de um nível de pressão financeira que limita a expansão sustentável do consumo e aumenta o risco para o varejo.

A combinação desses três indicadores revela um ambiente econômico caracterizado por confiança empresarial elevada, consumo ainda positivo e finanças familiares pressionadas. O empresário está disposto a investir e contratar, mas o consumidor depende cada vez mais de crédito e opera com menor margem de segurança. Essa assimetria sugere que o crescimento de 2026 tende a ser mais seletivo, concentrado em segmentos menos dependentes de crédito de alto custo e mais sustentado por faixas de renda superiores.

Para os próximos meses, o cenário aponta para continuidade do crescimento, porém em ritmo moderado. Se o mercado de trabalho permanecer resiliente e não houver agravamento nas condições de crédito, o consumo deve se manter em terreno positivo, ainda que com menor dinamismo. Para o empresariado, o momento exige estratégia calibrada: expansão com disciplina financeira, gestão rigorosa de estoques e crédito, e foco em eficiência operacional. O motor da economia está funcionando — mas a velocidade dependerá da capacidade de aliviar a pressão sobre o orçamento das famílias.