Economia em ritmo moderado

Economia em ritmo moderado

Por Max Cohen, economista da Fecomércio-AM

A economia do Amazonas inicia fevereiro de 2026 sob um quadro de transição moderada, combinando resiliência estrutural com sinais claros de desaceleração cíclica. O número de empresas registradas na JUCEA continua em expansão, alcançando 851.922 registros, dos quais 86,7% pertencem aos segmentos do Comércio e Serviços. O avanço mensal de 1,46% no setor reforça a vitalidade do ambiente empreendedor, mesmo em um contexto macroeconômico mais restritivo. Esse movimento confirma a centralidade do setor terciário na estrutura produtiva estadual, que segue como principal vetor de geração de renda e ocupação.

Entretanto, os indicadores de atividade revelam perda de desempenho no encerramento de 2025. O comércio varejista, de acordo com o IBGE, apresentou retração relevante em dezembro (-3,2% na margem), com crescimento acumulado no ano de apenas 0,6%, consolidando trajetória de desaceleração ao longo do segundo semestre. O varejo ampliado também recuou no mês(-3,0%), mantendo desempenho anual moderado (1,2%) e sinalizando fragilidade nos segmentos mais dependentes de crédito e bens duráveis. A tendência de arrefecimento no acumulado em 12 meses confirma que o consumo perdeu intensidade ao longo do ano passado.

O setor de serviços apresentou quadro ainda mais desafiador. Dezembro marcou nova retração(-0,6% na margem e -7,1% na comparação anual), levando o acumulado de 2025 a -1,5%. O indicador em 12 meses migrou para terreno negativo (-1,5%), caracterizando inflexão estrutural após forte desaceleração iniciada no terceiro trimestre. Esse desempenho exige atenção, pois serviços respondem por parcela expressiva do PIB estadual e possuem forte encadeamento com o comércio e o mercado de trabalho.

Em contraste, o turismo permanece como principal destaque positivo. Apesar da acomodação mensal (-2,4%), o setor fechou 2025 com crescimento expressivo de 11,5% no acumulado do ano, mantendo patamar elevado também em 12 meses. A leve desaceleração recente indica normalização do ritmo de expansão, mas não altera a tendência estrutural favorável. O turismo consolida-se como vetor estratégico de diversificação econômica, geração de renda e dinamização dos serviços no Estado.

No mercado de trabalho, os dados revelam ajuste sazonal em dezembro, com retração mensal do estoque de empregos formais no comércio e serviços (-1,31%), reflexo típico do encerramento de contratos temporários (CAGED). Ainda assim, na comparação anual, o crescimento é de 3,33%, confirmando expansão estrutural do emprego ao longo de 2025. Esse fator ajuda a explicar o ambiente favorável captado pelo Índice de Intenção de Consumo das Famílias (ICF - CNC), que permanece em zona confortável de satisfação (127,0 pontos), sustentado por percepção positiva de emprego e crédito. Contudo, a melhora do consumo convive com elevação do endividamento e da inadimplência, que atingem níveis elevados e crescentes em janeiro, configurando risco relevante para o ciclo de consumo ao longo de 2026.

Do ponto de vista fiscal e macroeconômico, o quadro é de estabilidade com viés de acomodação. A arrecadação de ICMS do comércio e serviços iniciou o ano praticamente estável na comparação interanual, mantendo patamar elevado no acumulado de 12 meses. O câmbio apresentou apreciação relevante, com o dólar recuando para R$ 5,23, aliviando parcialmente pressões inflacionárias. A inflação, por sua vez, registrou 0,33% em janeiro, com IPCA em 12 meses de 4,44%, ainda dentro da banda da meta. A curva de juros mostra queda consistente nas taxas curtas e intermediárias, reforçando a expectativa de início gradual de cortes da Selic a partir de março, conforme antecipado pelo mercado e refletido no Relatório Focus, que projeta convergência inflacionária e crescimento moderado no horizonte 2026–2029.

Em síntese, o Amazonas inicia 2026 com sinais de recuperação seletiva da confiança empresarial e do consumo, mas ainda sob impacto da desaceleração do comércio e da contração dos serviços. O cenário é de transição: inflação sob controle relativo, juros ainda elevados, porém com perspectiva de queda, câmbio mais favorável no curto prazo e atividade econômica em ritmo moderado. Para os empresários, o aconselhamento estratégico é claro: manter disciplina financeira, reforçar gestão de crédito e estoques, priorizar eficiência operacional e segmentação de mercado. Oportunidades existem, especialmente no turismo e em serviços de maior valor agregado, mas o ambiente exige prudência. A estratégia vencedora em 2026 será aquela que combinar expansão seletiva com forte controle de risco, flexibilidade e monitoramento contínuo das condições macroeconômicas e do comportamento das famílias.