Criar valor e prosperar com IA

Criar valor e prosperar com IA

Por Dr. Max Cohen, economista da Fecomércio-AM

A história econômica mostra que momentos de ruptura tecnológica não são opcionais – são seletivos. Organizações que se reinventam sobrevivem; as que resistem à mudança desaparecem. Hoje, essa ruptura atende por um nome claro: inteligência artificial. Não se trata apenas de uma nova ferramenta, mas de uma mudança estrutural na forma como valor é criado, distribuído e escalado. Assim como a eletricidade redefiniu a indústria e a internet redefiniu o comércio, a IA redefine o próprio processo de pensar, produzir e decidir.

As regras para prosperar mudaram. No passado, vantagem competitiva estava associada a ativos físicos, capital financeiro ou acesso privilegiado a mercados. Agora, o centro de gravidade desloca-se para ativos digitais e capacidade de orquestrar inteligência. O poder do digital se expande porque bits têm uma característica fundamental: escalam a custo marginal próximo de zero. Isso significa que ideias, modelos e soluções podem ser replicados globalmente com velocidade e baixo custo. Em um mundo assim, o foco estratégico deve ser direcionado para aquilo que pode ser digitalizado – e, portanto, escalado.

A inteligência artificial acelera essa transição ao reduzir drasticamente as barreiras de entrada. Hoje, já é possível transformar uma ideia em um aplicativo funcional sem escrever uma única linha de código. A IA escreve, testa e ajusta o software. O que antes exigia equipes inteiras de desenvolvedores, agora pode ser iniciado por um indivíduo com visão clara e capacidade de formular problemas. Isso inaugura uma nova lógica: ideias viram aplicativos, e aplicativos podem rapidamente se tornar negócios. O empreendedorismo entra em uma fase de hiperaceleração.

Mais do que criar produtos, a IA revoluciona fluxos de trabalho. Atividades que antes eram manuais, repetitivas ou dependentes de esforço físico podem ser digitalizadas, automatizadas e otimizadas. Um exercício simples ilustra esse ponto: pense em algo no seu cotidiano profissional que consome tempo – um caderno de anotações, um checklist operacional, um processo de atendimento, um serviço a ser prestado. Agora, pergunte-se: como isso pode se tornar digital? Com IA, a primeira versão dessa solução pode ser construída em questão de horas. O ganho não é apenas de eficiência, mas de capacidade de reinvenção contínua.

Nesse contexto, surgem visões divergentes. Há os pessimistas, que enxergam substituição e risco; e os otimistas, que identificam ampliação de capacidades humanas. A evidência empírica favorece os segundos. Um exemplo recente é o desempenho de Taiwan, cuja economia cresceu 8,6% em 2025 – o ritmo mais forte em 15 anos – impulsionada pelo boom da IA. Esse dado não é um acaso estatístico, mas um sinal de um fenômeno mais amplo: estamos diante de um possível superciclo tecnológico, com impactos que se estendem por décadas, redefinindo setores inteiros e criando novas fronteiras de crescimento.

Do ponto de vista teórico, dois conceitos ajudam a entender a profundidade dessa transformação. O primeiro é o Paradoxo de Polanyi, que afirma: “sabemos mais do que conseguimos explicar”. Muitas habilidades humanas são tácitas – difíceis de codificar em regras explícitas. A IA, especialmente os modelos modernos, começa a capturar parte desse conhecimento implícito, aprendendo padrões a partir de dados e exemplos. O segundo é o Paradoxo de Jevons: quando uma tecnologia aumenta a eficiência no uso de um recurso, o consumo total desse recurso tende a crescer, não diminuir. Aplicado à IA, isso significa que, à medida que tarefas se tornam mais fáceis e baratas de executar, a demanda por essas mesmas tarefas se expande – criando mais atividade econômica, não menos.

A conclusão é: não se trata de competir com a inteligência artificial, mas de trabalhar com ela. A IA não elimina o papel humano; ela redefine onde o humano gera mais valor. Em vez de executar tarefas repetitivas, o foco desloca-se para formular problemas, interpretar resultados e tomar decisões estratégicas. Em um mundo orientado por bits, prospera quem entende onde a escala é possível e como utilizá-la. A inteligência artificial não é apenas uma ferramenta – é a nova infraestrutura da economia. E, como toda infraestrutura transformadora, favorece aqueles que aprendem a usá-la primeiro. Resta agora saber como você vai usá-la.