Por Dr. Max Cohen, economista da Fecomércio-AM
Os dados de abril de 2026 das pesquisas da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) para Manaus mostram uma economia que continua funcionando em ritmo relativamente favorável, mas cada vez mais seletiva. Se março havia revelado um descompasso crescente entre empresários e consumidores, abril sugere uma tentativa de reequilíbrio parcial desse movimento. O consumo apresentou recuperação moderada, o empresariado permaneceu otimista e o mercado de trabalho continuou sustentando a atividade econômica. Ainda assim, os indicadores deixam claro que o ambiente segue pressionado por juros elevados, crédito mais restritivo e alto comprometimento financeiro das famílias.
Pelo lado empresarial, o Índice de Confiança do Empresário do Comércio (ICEC) manteve-se em zona de otimismo, ao registrar 117,1 pontos em abril. Embora o resultado represente leve recuo em relação aos 118,3 pontos de março, o nível continua historicamente elevado. A principal mudança não está no desaparecimento da confiança, mas na sua qualidade. O empresário segue otimista, porém mais criterioso. As expectativas continuam positivas, especialmente em relação às próprias empresas, mas as decisões de expansão continuam a ocorrer de maneira mais seletiva e cautelosa, refletindo maior atenção ao ambiente macroeconômico nacional, ainda percebido como restritivo. Os indicadores ligados à contratação e ao investimento apresentaram melhora em abril, sinalizando que o setor privado ainda mantém disposição para crescer. Em outras palavras, o empresário não interrompeu seus planos, mas passou a operar sob lógica mais defensiva, priorizando eficiência operacional, controle de custos e investimentos com maior previsibilidade de retorno.
Do lado das famílias, abril trouxe uma mudança importante em relação ao quadro observado em março. O Índice de Intenção de Consumo das Famílias (ICF) voltou a subir, atingindo 124,1 pontos, revertendo parte da perda de dinamismo recente. A melhora foi sustentada principalmente pelo mercado de trabalho, pela percepção de renda e pelas expectativas profissionais, que continuam em níveis elevados. Isso mostra que o consumidor manauara ainda encontra sustentação no emprego e na renda, fatores que continuam funcionando como principal base de sustentação do comércio local. Entretanto, essa melhora não elimina as fragilidades estruturais do consumo. O crédito continua seletivo e as famílias seguem demonstrando cautela nas compras de maior valor. O indicador relacionado à aquisição de bens duráveis permanece abaixo da linha de satisfação, refletindo desconforto com juros elevados e parcelamentos mais caros. O ambiente favorece itens correntes e essenciais, enquanto segmentos dependentes de financiamento enfrentam maior sensibilidade às condições financeiras.
A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC) confirma esse quadro de pressão estrutural. O percentual de famílias endividadas permaneceu extremamente elevado, atingindo 87,7%, enquanto quase metade das famílias continua com contas em atraso. Embora abril tenha apresentado leve melhora marginal na inadimplência e na capacidade de pagamento, o quadro geral permanece delicado. O mais relevante é que a estrutura da dívida continua concentrada em modalidades de maior custo financeiro, especialmente cartão de crédito e crédito pessoal, elevando a vulnerabilidade das famílias de menor renda e reduzindo a flexibilidade orçamentária do consumidor.
A leitura conjunta das pesquisas revela que Manaus continua apresentando uma economia resiliente, mas em transição para uma fase de crescimento mais moderado e seletivo. O motor da atividade permanece funcionando, sustentado pelo emprego, pela renda e pela confiança empresarial, porém com menor intensidade e maior dependência das condições financeiras. O empresário segue otimista, mas mais prudente. O consumidor continua consumindo, mas com crescente seletividade. Para os próximos meses, a sustentação desse equilíbrio dependerá principalmente da manutenção do mercado de trabalho, da evolução do crédito e da capacidade das famílias administrarem um nível de endividamento que continua historicamente elevado.