Consumo no limite

Consumo no limite

Por Dr. Max Cohen, economista da Fecomércio-AM

Os indicadores de junho de 2026 mostram que o consumo em Manaus continua sustentando parte relevante da atividade econômica, mas opera cada vez mais próximo do seu limite financeiro. A leitura conjunta dos indicadores da Confederação Nacional do Comércio (CNC), como o Índice de Confiança do Empresário do Comércio (ICEC), o Índice de Intenção de Consumo das Famílias (ICF) e a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), revela um ambiente de negócios ainda positivo, porém mais sensível a renda, crédito, inadimplência e preços. Há confiança empresarial, intenção de consumo e disposição para investir, mas o avanço ocorre sobre uma base doméstica pressionada por dívidas elevadas e menor folga no orçamento das famílias.

Do lado empresarial, o ICEC de Manaus registrou 115,6 pontos em junho, permanecendo acima da linha de otimismo e avançando 2,0% em relação ao mês anterior. O dado indica recuperação da confiança após a queda observada em maio. Ainda assim, a leitura exige cautela: as condições atuais do empresário seguem abaixo da neutralidade, com 95,4 pontos, embora tenham melhorado 3,9% no mês e 16,0% em relação ao ano anterior. A mensagem pode ser interprestada como: o empresário acredita no futuro e confia mais na própria empresa do que no ambiente econômico geral, mas reconhece que o mercado opera sob restrições relevantes.

Pelo lado das famílias, o ICF alcançou 126,4 pontos, sustentando um ambiente favorável ao consumo. O indicador cresceu 0,3% no mês e cerca de 8,0% em relação a junho de 2025, apoiado principalmente na percepção positiva sobre emprego, renda e perspectiva profissional. A situação atual do emprego chegou a 147,7 pontos, enquanto a perspectiva profissional atingiu 172,0 pontos, mostrando que o mercado de trabalho continua sendo o principal amortecedor da economia local. O ponto central, porém, é que emprego forte já não significa, automaticamente, sensação plena de bem-estar econômico. A dívida, o custo do crédito e a pressão sobre o orçamento doméstico reduzem a percepção de melhora e limitam a transformação da renda em consumo efetivo.

Esse limite aparece de forma cada vez mais clara no comportamento do consumidor. As famílias continuam circulando, pesquisando e entrando nas lojas, mas estão mais criteriosas, comparam preços e reduzem o valor final da compra. Em outras palavras, há movimento, mas nem sempre há conversão proporcional em faturamento. Essa leitura ajuda a explicar por que o consumo corrente em Manaus recuou 1,4% e a perspectiva de consumo caiu 3,3%, mesmo com emprego e renda em níveis favoráveis. O consumidor não desapareceu; ele apenas passou a comprar com mais disciplina, priorizando itens essenciais, promoções, parcelamentos mais vantajosos e produtos de menor impacto no orçamento.

A principal trava permanece no orçamento doméstico. A PEIC mostra que 88,3% das famílias de Manaus continuam endividadas, percentual ligeiramente menor que o de maio, mas ainda superior ao observado há um ano. A inadimplência também recuou no mês, de 50,4% para 49,6%, porém segue em nível elevado. O cartão de crédito permanece como principal modalidade de dívida, presente em 67,4% das famílias endividadas, seguido pelos carnês de lojas, com 53,6%. Esse quadro reforça que o crédito caro torna o crescimento mais seletivo: famílias de maior renda conseguem manter maior capacidade de consumo, enquanto as de menor renda enfrentam mais restrições, maior inadimplência e menor espaço para compras financiadas, especialmente de bens duráveis.

O cenário, portanto, é de um consumo ainda ativo, mas no limite de sua sustentação financeira. Para os próximos meses, a tendência é de manutenção do comércio em terreno positivo, porém com menor intensidade, melhor desempenho nos segmentos de renda mais alta, nos produtos de consumo recorrente e nas empresas capazes de oferecer boas condições de pagamento sem comprometer margens. Ao mesmo tempo, o aumento dos gastos do atual governo, com perspectiva de continuidade no próximo ano, adiciona pressão à dimensão fiscal da economia e dificulta o trabalho do Banco Central no combate à inflação. Uma política fiscal mais expansionista tende a sustentar a demanda no curto prazo, mas também pode manter juros elevados por mais tempo, encarecendo o crédito e prolongando a cautela de consumidores e empresários. Para o comércio, a recomendação é crescer com disciplina: controlar estoques, preservar margens, qualificar a concessão de crédito, segmentar campanhas e priorizar investimentos com retorno mensurável.