Por Max Cohen, economista da Fecomércio-AM
O início de 2026 desenha um quadro econômico ambíguo e exigente para Manaus, a partir dos dados das pesquisas da Confederação Nacional do Comércio (CNC) para o mês de janeiro. Os indicadores de confiança e intenção mostram empresários e consumidores mais otimistas no curto prazo, enquanto os dados de endividamento revelam restrições crescentes no orçamento das famílias. O ambiente de negócios segue funcional e em movimento, mas opera com tensões financeiras latentes, que impõem cautela estratégica.
Pelo lado do consumo, o Índice de Intenção de Consumo das Famílias (ICF) permanece em nível elevado, acima da linha de satisfação, com avanço mensal e desempenho superior ao observado no início de 2025. O mercado de trabalho aparece como principal sustentação: cresce a percepção de segurança no emprego e a perspectiva profissional segue favorável. O acesso ao crédito melhorou no curto prazo, e o consumo corrente continua avançando, ainda que com sinais pontuais de acomodação em renda e expectativas futuras.
No entanto, essa disposição para consumir convive com um quadro financeiro mais apertado. A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC) mostra que o percentual de famílias endividadas segue em trajetória ascendente, atingindo patamar historicamente elevado. Mais preocupante é o crescimento da inadimplência, com aumento tanto mensal quanto anual das famílias com contas em atraso. A concentração das dívidas em instrumentos de curto prazo e juros elevados, como cartão de crédito e carnês, amplia a vulnerabilidade do consumo à frente.
Do lado das empresas, o Índice de Confiança do Empresário do Comércio (ICEC) indica retomada clara no curto prazo, com melhora expressiva na comparação mensal. Os empresários avaliam suas próprias empresas de forma positiva, mantêm intenção de investir e sinalizam continuidade nas contratações. Em contrapartida, a percepção sobre a economia e o setor, embora em recuperação recente, ainda é mais frágil na comparação anual, o que explica um comportamento empresarial mais seletivo e pragmático.
A leitura integrada desses indicadores sugere que a economia local opera em regime de tração desigual: o consumo segue sustentado por emprego e crédito, e o empresariado mantém confiança operacional, mas o endividamento elevado limita a potência do crescimento. Esse descompasso tende a favorecer setores de maior giro, bens essenciais e serviços, ao mesmo tempo em que impõe maior resistência à expansão de bens duráveis e operações fortemente dependentes de crédito.
Para os próximos meses, o cenário aponta para continuidade do crescimento moderado, desde que o mercado de trabalho se mantenha resiliente e não haja deterioração adicional do crédito. O desafio central será administrar a transição entre um ciclo de confiança e um ciclo de ajuste financeiro das famílias. Para empresários e executivos, o momento recomenda crescimento com disciplina, atenção à qualidade do crédito, gestão rigorosa de caixa e estratégias comerciais alinhadas à real capacidade de pagamento do consumidor.