“Como o crédito caro devora as margens de lucro do comercio amazonense”

“Como o crédito caro devora as margens de lucro do comercio amazonense”

Por Amanda Evangelista - Advogada e Economista

Empreender no Brasil exige uma dose extra de resiliência. O cenário atual não dá trégua: com a taxa Selic mantida no patamar restritivo de 14,25% ao ano, o crédito encareceu, o poder de compra do consumidor encolheu e o capital de giro virou o principal gargalo dos negócios. Se no resto do país a conta já é difícil de fechar, aqui no Amazonas o desafio ganha contornos ainda maiores.

Para o comércio local, gerenciar o caixa é um exercício diário de sobrevivência. Diferente do empresário do Sul e Sudeste, o comerciante amazonense convive com o "custo do isolamento". Depender do transporte fluvial ou aéreo significa que as mercadorias demoram semanas para chegar. Para não ficar desabastecido, o varejo local precisa trabalhar com estoques maiores e planejados com muita antecedência. O problema é que estoque parado é dinheiro imobilizado.

Na economia, o dinheiro precisa circular constantemente entre empresas e famílias para gerar desenvolvimento. Quando o empresário recorre a empréstimos bancários rápidos ou ao cheque especial para cobrir o tempo de espera do frete, assume juros altíssimos que engolem a margem de lucro. Isso cria uma perigosa "ilusão de liquidez" — o caixa parece cheio hoje, mas a dívida amanhã será maior, sufocando o negócio por completo.

A saída para essa questão não está em buscar mais dinheiro no mercado a qualquer custo, mas sim em se reorganizar. Contratos com bancos não são definitivos e imutáveis. O empresário tem o direito de renegociar, trocar dívidas caras de curto prazo por prazos mais longos e taxas justas. Além disso, uma análise detalhada desses contratos pode apontar cobranças abusivas, compras casadas, o que é proibido por lei, e tarifas ocultas que servem como moeda de troca para conseguir um acordo melhor.

Por outro lado, a saúde do comércio não depende apenas de resolver as contas internas; depende de ter para quem vender. E a realidade do consumidor local também é delicada. Hoje, o Amazonas tem mais de 1,8 milhão de pessoas inadimplentes — o que representa quase 50% da nossa população adulta, Manaus sozinha concentra a imensa maioria desse problema, com cerca de 1,1 milhão de pessoas com restrição no CPF, com dívidas que passam dos R$ 5,5 mil em média.

É por isso que iniciativas como os feirões de renegociação do Serasa são tão importantes para a nossa economia. Quando o consumidor consegue descontos reais para quitar o que deve e “limpar” o nome, o benefício não é só dele. Esse CPF reabilitado recupera o acesso ao crediário e volta a consumir. O período pós-feirão é uma oportunidade ouro para o comércio atrair esse cliente, oferecendo condições atrativas.

Para fugir da armadilha dos juros dos grandes bancos, o empresariado deve buscar caminhos alternativos. O cooperativismo de crédito oferece taxas menores e mais competitivas que o sistema tradicional. Outra via indispensável são as linhas de financiamento da Agência de Fomento do Estado do Amazonas – Afeam, além do uso do planejamento tributário para aproveitar créditos fiscais com a finalidade de injetar dinheiro no caixa sem se render a juros abusivos.

Vencer o "custo do isolamento" exige engenharia financeira. Mais do que cortar despesas, a sustentabilidade do comércio depende da troca de dívidas caras por fomento regional e cooperativismo. Essa estratégia blinda o patrimônio corporativo e consolida a economia local como o motor do nosso desenvolvimento.