Por Dr. Max Cohen - economista da Fecomércio-AM
A economia do Amazonas chega ao segundo trimestre de 2026 exibindo um quadro de moderação econômica, porém ainda sustentado pela resiliência do comércio, do mercado de trabalho e da confiança relativa de empresários e consumidores. Os indicadores mais recentes mostram uma atividade econômica heterogênea: enquanto o comércio varejista e o varejo ampliado apresentaram recuperação importante em março, o setor de serviços segue perdendo dinamismo. Ao mesmo tempo, o ambiente macroeconômico nacional permanece desafiador, marcado por inflação ainda elevada, juros altos e maior seletividade do crédito. O resultado é uma economia que continua crescendo, mas em ritmo mais cauteloso e menos disseminado entre os setores.
O principal vetor positivo da economia amazonense continua sendo o setor terciário. Dados da JUCEA mostram que o Amazonas alcançou 879 mil empresas registradas em maio de 2026, sendo 86,7% concentradas em comércio e serviços, reforçando a centralidade dessas atividades na estrutura econômica estadual. O avanço de 1% no número de empresas do segmento entre abril e maio sinaliza continuidade do empreendedorismo e da abertura de novos negócios, mesmo em um ambiente financeiro ainda restritivo. Essa expansão ocorre em paralelo à manutenção do comércio e serviços como principal empregador formal do estado, respondendo por 68,3% dos empregos formais do Amazonas, segundo o CAGED.
O desempenho do comércio apresentou melhora relevante em março. O varejo restrito, segundo IBGE, cresceu 3,7% frente a fevereiro e avançou 6,4% na comparação anual, enquanto o varejo ampliado teve expansão ainda mais forte, de 8,4% no mês e 10% frente a março de 2025. O comportamento do varejo ampliado é particularmente importante porque envolve segmentos mais dependentes de crédito, como veículos, materiais de construção e bens duráveis. Além disso, os indicadores acumulados em 12 meses interromperam a trajetória de deterioração observada desde o segundo semestre de 2025, sugerindo início de estabilização da atividade comercial. Ainda que o crescimento acumulado no ano permaneça modesto, os dados indicam recuperação gradual do consumo e melhora parcial do ambiente econômico no curto prazo.
Parte desse movimento continua sendo sustentada pelo mercado de trabalho e pela renda das famílias. O Índice de Intenção de Consumo das Famílias (ICF) de Manaus, segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC), manteve-se em patamar elevado, atingindo 124,1 pontos em abril. Os componentes ligados ao emprego, renda e perspectivas profissionais seguem particularmente fortes, revelando que as famílias ainda percebem relativa estabilidade ocupacional e expectativa positiva quanto à evolução da renda. O próprio CAGED confirma esse movimento ao registrar saldo positivo de 1.115 empregos formais em março no segmento de comércio e serviços. A melhora recente das condições de crédito também ajudou a reduzir parcialmente a cautela observada nos meses anteriores, embora o ambiente financeiro permaneça mais seletivo, especialmente para famílias de menor renda.
Apesar disso, o quadro econômico ainda apresenta fragilidades importantes. O setor de serviços continua sendo o principal ponto de atenção da economia amazonense. Em março, o segmento apresentou crescimento marginal de apenas 0,3% frente a fevereiro, acumulando retração de 3,9% na comparação anual e queda de 2,6% no primeiro trimestre (IBGE). O indicador acumulado em 12 meses aprofundou o movimento negativo iniciado ainda em 2025, evidenciando desaceleração consistente da atividade. O turismo segue em terreno positivo e continua funcionando como um importante amortecedor econômico, com crescimento acumulado de 5,4% no primeiro trimestre, embora já apresente desaceleração gradual após o forte desempenho observado ao longo do último ano.
O comportamento do consumidor também exige cautela. A PEIC (CNC) mostra que o endividamento das famílias permanece extremamente elevado em Manaus, atingindo 87,7% das famílias, enquanto a inadimplência segue próxima de metade dos domicílios. Embora tenha ocorrido melhora marginal em abril, o comprometimento médio da renda continua alto e grande parte das dívidas permanece concentrada em modalidades de maior custo financeiro, especialmente cartão de crédito e crédito rotativo. Esse cenário limita uma expansão mais robusta do consumo e aumenta a sensibilidade da economia local ao ambiente de juros elevados. A própria percepção das famílias sobre compras de bens duráveis continua negativa, reflexo direto do custo do crédito e das restrições financeiras.
No plano macroeconômico, o cenário nacional continua impondo restrições importantes à atividade. A inflação segue pressionada, com IPCA de 0,67% em abril e expectativas acima de 5% para 2026 segundo o Relatório Focus. Em resposta, o mercado passou a projetar juros elevados por período mais prolongado, enquanto a Selic permanece em 14,50% ao ano e a curva de juros voltou a ganhar inclinação positiva. Esse ambiente encarece o crédito, reduz o apetite ao investimento e exige maior seletividade empresarial. Ainda assim, alguns fatores contribuem para reduzir parte da pressão econômica no Amazonas, como a relativa estabilidade do dólar próximo de R$ 5,00 e a recente queda do custo da cesta básica em Manaus, que trouxe alívio parcial ao poder de compra das famílias.
De forma geral, o Amazonas encerra o início de 2026 em um cenário de crescimento moderado, sustentado principalmente pelo comércio, pela geração de empregos e pela resiliência do consumo, mas ainda convivendo com desaceleração dos serviços, elevado endividamento das famílias e um ambiente macroeconômico nacional restritivo. A leitura predominante é de estabilização com viés cautelosamente positivo, porém sem sinais de expansão acelerada no curto prazo. Nesse contexto, o aconselhamento estratégico para os empresários é claro: o momento exige foco em eficiência operacional, gestão rigorosa de caixa, seletividade nos investimentos e maior atenção à qualidade do crédito concedido ao consumidor. Empresas mais adaptáveis, com capacidade de controlar custos, fortalecer relacionamento com clientes e atuar de forma mais orientada por dados e produtividade, tendem a atravessar este período com maior resiliência e vantagem competitiva.