Por Max Cohen, economista da Fecomércio-AM
A economia do Amazonas inicia março de 2026 com um quadro de atividade ainda positiva, porém marcado por sinais de moderação no ritmo de crescimento. A base empresarial continua em expansão, com 860.017 empresas registradas na JUCEA, das quais 86,7% pertencem aos segmentos de Comércio e Serviços — eixo central da estrutura produtiva estadual. O crescimento de 0,95% do número de empresas desse segmento entre fevereiro e março indica continuidade do dinamismo empreendedor, mesmo em um ambiente econômico caracterizado por juros elevados e maior cautela no consumo.
No comércio, os dados mais recentes apontam recuperação na margem, mas ainda sem aceleração consistente do consumo. O varejo restrito avançou 4,8% em janeiro frente a dezembro, enquanto o varejo ampliado cresceu 2,9%, recuperando parte da retração observada no encerramento de 2025. Contudo, as variações interanuais de 0,9% e 2,1% revelam expansão moderada. Além disso, o desempenho acumulado em 12 meses mostra trajetória de desaceleração gradual, indicando que o consumidor permanece ativo, porém mais seletivo nas decisões de compra.
O setor de serviços apresenta sinais relativamente mais favoráveis. Em janeiro, houve crescimento de 0,7% frente ao mês anterior e expansão expressiva de 5,7% na comparação interanual. Embora o acumulado em 12 meses ainda esteja levemente negativo, observa-se melhora em relação ao final de 2025, sugerindo início de recuperação da atividade. Dentro desse segmento, o turismo permanece como destaque: as atividades turísticas cresceram 13,7% em relação a janeiro de 2025 e acumulam expansão de 11,8% em 12 meses, consolidando-se como um dos vetores mais dinâmicos da economia regional.
Os indicadores de confiança reforçam um cenário de otimismo moderado. O Índice de Confiança do Empresário do Comércio (ICEC) de Manaus atingiu 119,1 pontos em fevereiro, mantendo-se em zona de otimismo e sustentado principalmente pela avaliação positiva dos empresários sobre seus próprios negócios. Entre as famílias, a Intenção de Consumo também permanece elevada, com 123,3 pontos. Entretanto, a queda mensal observada no indicador sugere acomodação do consumo após o período de maior dinamismo no final de 2025, especialmente diante de condições de crédito mais restritivas.
A situação financeira das famílias exige atenção. A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor revela aumento tanto do endividamento quanto da inadimplência em Manaus. O percentual de famílias endividadas alcançou 88,2%, enquanto metade das famílias possui dívidas em atraso. Esse quadro, associado ao elevado comprometimento da renda, tende a limitar a expansão do consumo ao longo dos próximos meses, especialmente nos segmentos mais dependentes de crédito.
Pelo lado fiscal e de preços, os sinais também apontam para um ambiente de crescimento com pressões. A arrecadação de ICMS do comércio e serviços totalizou R$ 654 milhões em fevereiro, registrando retração de 18,0% frente a janeiro e queda de 6,4% no acumulado do bimestre em relação a 2025. Ao mesmo tempo, o custo de vida segue pressionado: a cesta básica em Manaus atingiu R$ 860,72 em janeiro e acumula forte alta no semestre, refletindo pressões logísticas e estruturais sobre os preços de alimentos e impactando o poder de compra das famílias.
No ambiente macroeconômico, as condições financeiras continuam desafiadoras. A taxa Selic permanece em 15,0% ao ano, e a curva de juros indica expectativa de redução gradual apenas no médio prazo. O câmbio mantém-se em patamar elevado, próximo de R$ 5,26, enquanto as projeções do Relatório Focus indicam crescimento moderado da economia brasileira e processo lento de normalização monetária. Nesse contexto, a economia amazonense tende a seguir em expansão moderada ao longo de 2026, sustentada pela resiliência do setor de serviços, pela atividade turística e pela base empresarial crescente, ainda que sob influência de juros elevados, consumo mais seletivo e maior disciplina financeira por parte de empresas e famílias.