Artigo - Os descompassos no fim do ano

Artigo - Os descompassos no fim do ano

Por Dr. Max Cohen, economista da Fecomércio-AM

À medida que Manaus se aproxima do encerramento de 2025, três indicadores centrais — a Intenção de Consumo das Famílias (ICF), o Índice de Confiança do Empresário do Comércio (ICEC) e a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), desenvolvidos pela Confederação Nacional do Comércio (CNC) — revelam, em conjunto nos dados de novembro, um retrato complexo e revelador da dinâmica econômica local. Em síntese, o consumidor manauara demonstra prudência, o empresário mantém otimismo para o futuro e o endividamento das famílias, ainda elevado, apresenta sinais modestos de alívio. Essa combinação sugere um cenário de transição, marcado por desafios estruturais, mas também por janelas de oportunidade no curto prazo.

No lado das famílias, o ICF de novembro mostra uma ligeira retração, mas permanece acima da linha de satisfação. As famílias veem com confiança o mercado de trabalho, porém enfrentam dificuldades crescentes no acesso ao crédito e apresentam desaceleração no consumo atual. A percepção da renda mostra enfraquecimento, e a compra de bens duráveis continua em território pessimista, reflexo de juros altos e custo de vida pressionado. Apesar disso, o humor geral permanece positivo, sustentado pela expectativa de um dezembro mais favorável, impulsionado pelo 13º salário e pela sazonalidade do comércio.

Pelo lado das empresas, o ICEC apresenta leve melhora em novembro, refletindo a força das expectativas. Os empresários manauaras continuam avaliando o presente com cautela — especialmente as condições da economia e do comércio —, mas projetam um futuro mais promissor. A intenção de contratar subiu, e o investimento empresarial permanece em trajetória ascendente, sugerindo confiança na retomada gradual das vendas. A diferença entre pessimismo no presente e otimismo no futuro é uma característica típica de momentos de transição econômica, indicando que o setor produtivo acredita na recuperação, ainda que esteja monitorando riscos de curto prazo.

O ponto mais sensível do trimestre, porém, segue sendo o endividamento das famílias. A PEIC de novembro registrou estabilidade em níveis historicamente elevados: mais de 87% das famílias continuam endividadas, e quase metade possui contas em atraso. Ainda assim, há sinais positivos: caiu o número de famílias muito endividadas, reduziu a parcela incapaz de pagar dívidas e diminuiu o comprometimento superior a 50% da renda. Esses movimentos indicam que, para parte da população, o fim do ano trouxe condições financeiras um pouco menos severas, impulsionadas por renegociações e maior liquidez, incluindo o 13º. salário.

A leitura combinada dos três indicadores revela um equilíbrio delicado. O comércio depende de famílias menos pressionadas financeiramente para sustentar seu ciclo de vendas, enquanto as famílias dependem de crédito acessível e renda estável para manter sua capacidade de consumo. O avanço das expectativas do empresariado é um bom sinal — indica disposição para investir, contratar e enfrentar o próximo ano com confiança —, mas sua consolidação depende da manutenção de um ambiente macroeconômico minimamente estável e da trajetória da renda das famílias.

Para 2026, o desafio central será transformar o otimismo das expectativas em melhora concreta das condições atuais. Isso exige controle da inadimplência, estímulo à renda e, sobretudo, uma política de crédito que permita às famílias reorganizar suas finanças sem ampliar o risco de insolvência. Manaus chega ao fim de 2025 com sinais mistos, refletindo avanços e retrocessos que ainda soam em descompasso. Há potencial para retomada, desde que consumidores e empresários encontrem, no início do ano, o equilíbrio necessário para alinhar confiança, consumo e endividamento. Somente quando esses elementos caminharem em harmonia será possível superar os descompassos da economia manauara.