Por Dr. Max Cohen, economista da Fecomércio-AM
Nos últimos meses, o debate sobre a inteligência artificial (IA) tem despertado uma inquietação crescente entre trabalhadores de todo o mundo. Motoristas, tradutores, designers e até profissionais de áreas técnicas passaram a temer o avanço das máquinas e o risco de substituição. Não se trata de paranoia. O temor nasce de um fato inescapável: a automação está, de fato, transformando o mercado de trabalho. As ferramentas de IA generativa produzem textos, imagens e códigos em segundos, o que desafia a noção tradicional de ofício humano e impõe uma reconfiguração profunda das ocupações.
Mas antes de enxergarmos apenas a sombra, é preciso compreender a luz que a tecnologia emite. A inteligência artificial é um campo da ciência da computação que busca criar sistemas capazes de aprender, raciocinar e tomar decisões — simulando, em parte, a inteligência humana. Hoje, ela é útil e onipresente: algoritmos ajudam médicos a detectar tumores com precisão, tradutores automáticos conectam culturas, e plataformas de ensino personalizam o aprendizado conforme o ritmo do aluno. Nas empresas, a IA otimiza estoques, reduz desperdícios e prevê demandas com base em dados. É, portanto, um instrumento de eficiência, e não apenas uma ameaça à sobrevivência do trabalho.
Entretanto, é justamente essa eficiência que alimenta o paradoxo do medo. O economista britânico William Stanley Jevons, ainda no século XIX, demonstrou que quando uma inovação torna o uso de um recurso mais eficiente e barato, o consumo total desse recurso tende a aumentar — fenômeno conhecido como Paradoxo de Jevons . Em vez de reduzir o uso do carvão, as máquinas a vapor o multiplicaram. A mesma lógica se aplica à IA moderna: ao baratear e acelerar tarefas cognitivas, a tecnologia não elimina a demanda por trabalho humano, mas a transforma e a amplia.
Vejamos o caso dos radiologistas. Há menos de uma década, especialistas previam o desaparecimento da profissão, imaginando que algoritmos de reconhecimento de imagem assumiriam o diagnóstico médico. O que ocorreu foi o oposto: a IA reduziu custos, aumentou a velocidade dos exames e revelou uma demanda reprimida por diagnósticos — o número de radiologistas, em vez de cair, aumentou. Assim como a conteinerização ampliou o comércio global e a computação em nuvem multiplicou empregos em TI, a IA tende a expandir o universo de aplicações cognitivas, abrindo espaço para novos papéis: engenheiros de prompt, curadores de dados, analistas de ética e supervisores de agentes inteligentes.
O desafio real, portanto, não é o desaparecimento do trabalho, mas a velocidade com que as pessoas e instituições se adaptam a essa nova paisagem. O Brasil, infelizmente, entra nessa corrida com desvantagem. A ausência de letramento digital, o baixo investimento em pesquisa e a carência de programas de requalificação colocam o país em posição vulnerável diante da revolução em curso. A desigualdade tende a aumentar se o acesso à tecnologia continuar concentrado e se o sistema educacional não preparar os profissionais para interagir com a IA — em vez de competir com ela.
A história econômica ensina que o progresso técnico raramente destrói o trabalho; ele o desloca e o redefine. A inteligência artificial não foge à regra. O paradoxo de Jevons nos alerta que a eficiência cria novos horizontes de demanda — e que, quanto mais produtivas forem as máquinas, mais essencial se tornará a inteligência humana para orientar seu uso. Em um país que busca crescer de forma inclusiva e sustentável, o futuro do trabalho não será determinado pela substituição, mas pela capacidade de aprender, adaptar e reinventar o valor humano em meio à automação.