Artigo - O paradoxo do desemprego no Brasil

Artigo - O paradoxo do desemprego no Brasil

Por Max Cohen, economista da Fecomércio-AM.

A taxa de desemprego no Brasil alcançou, em 2025, níveis historicamente baixos segundo a PNAD Contínua do IBGE, reforçando a percepção de um mercado de trabalho aquecido. Esse resultado, contudo, convive com um dado estrutural relevante: um contingente expressivo da população permanece fora da força de trabalho. No trimestre encerrado em outubro de 2025, cerca de 66,1 milhões de pessoas não estavam ocupadas nem buscavam emprego, além de 2,6 milhões de desalentados, o que evidencia que a queda da desocupação não foi acompanhada por uma elevação proporcional da participação no mercado de trabalho .

Parte desse paradoxo decorre da própria definição estatística de desemprego, alinhada aos critérios da International Labour Organization. Apenas são considerados desempregados aqueles que não trabalharam, procuraram emprego ativamente e estavam disponíveis para assumir uma ocupação. Pessoas que desistiram de procurar, que aceitariam trabalhar mas não buscaram vaga recentemente, ou que estão subocupadas ficam fora da taxa principal. Por essa razão, o IBGE divulga indicadores complementares, como subutilização da força de trabalho e taxa de participação, essenciais para uma leitura mais abrangente do mercado .

Outro aspecto central está na natureza da ocupação criada. Entre novembro de 2024 e novembro de 2025, o emprego total cresceu pouco mais de 1%, mas de forma desigual entre setores. O avanço foi modesto no setor privado, enquanto o emprego no setor público cresceu de maneira mais intensa. Esse perfil ajuda a explicar por que a taxa de desemprego recua sem que haja ampla reinserção das pessoas fora da força de trabalho, uma vez que a expansão setorial não é homogênea nem necessariamente capaz de elevar a participação agregada .

O crescimento do trabalho por conta própria também influencia o quadro observado. No período analisado, esse grupo aumentou em cerca de 700 mil pessoas, com algum avanço da formalização, mas mantendo níveis elevados de informalidade, próximos de 38%. Esses arranjos ocupacionais contribuem para reduzir estatisticamente o desemprego, mas frequentemente estão associados a baixa renda, instabilidade e produtividade limitada, o que desestimula parte da população a retomar a busca ativa por emprego formal .

Fatores demográficos e sociais reforçam esse paradoxo. Estudos da Fundação Getulio Vargas indicam que o envelhecimento da população exerce influência direta sobre a queda da taxa de desemprego, pois o ritmo de saída de pessoas mais velhas da força de trabalho supera o ingresso de jovens. Simulações mostram que, se a estrutura etária atual fosse semelhante à de 2012, a taxa de desemprego seria substancialmente mais elevada. Além disso, dados do IBGE apontam que responsabilidades de cuidado e afazeres domésticos, concentradas sobretudo entre as mulheres, restringem a participação no mercado, ao lado de problemas de saúde, limitações funcionais e esgotamento, que aparecem como motivos relevantes para não procurar trabalho .

Por fim, o contingente fora da força de trabalho também reflete escolhas e restrições relacionadas a estudo, qualificação, saúde e renda. Parte da população adia a entrada no mercado para investir em educação ou capacitação, enquanto programas de transferência de renda reduzem a urgência de aceitar ocupações básicas, elevando o chamado salário de reserva. Nesse contexto, o paradoxo do desemprego no Brasil não decorre de inconsistência estatística, mas da distância entre uma taxa de desemprego baixa e uma taxa de participação que permanece contida: menos pessoas são classificadas como desempregadas não porque mais estejam trabalhando ou procurando trabalho, mas porque uma parcela relevante deixou de buscar ocupação. Interpretar corretamente esse cenário exige ir além da desocupação e considerar indicadores de participação, subutilização e qualidade do emprego, essenciais para avaliar se o mercado é capaz de atrair, reter e reinserir quem hoje permanece fora da força de trabalho.