Artigo - ​O Centro de Manaus

Artigo - ​O centro de Manaus

Por Francisco Braz, Superintendente do IBGE

O abandono de áreas urbanas é um processo complexo, conceituado como: declínio urbano, que denota deterioração socioeconômica e despovoamento; degradação urbana, que abrange a deterioração física e ambiental; e vazios urbanos, que são espaços subutilizados ou desocupados, culminando, em casos extremos, em cidades fantasmas. Esse fenômeno é impulsionado por causas diversas, como o declínio comercial, a concorrência econômica, a especulação imobiliária que retém imóveis vazios, o planejamento urbano falho que prioriza novas áreas em detrimento das consolidadas, e fatores sociais como o aumento da pobreza e segregação. Os impactos desse abandono são majoritariamente negativos, incluindo a deterioração da qualidade de vida, o aumento da violência e a formação de focos de degradação; contudo, esses espaços também apresentam potencial para ressignificação e reabilitação urbana por meio de novos projetos e reapropriação comunitária.

A população residente no Centro de Manaus tem demonstrado uma tendência de queda contínua nos últimos três Censos Demográficos, passando de 33.568 habitantes em 2000 para 33.183 em 2010, e atingindo 27.331 pessoas em 2022. Esta evolução é marcada por uma queda de 1.15% no primeiro período (2000 a 2010), seguida por uma acentuada aceleração do decréscimo, que resultou em uma redução de 17.64% entre 2010 e 2022, indicando um rápido processo de esvaziamento populacional do centro da cidade na década mais recente.

O Centro de Manaus enfrenta um cenário de grave abandono e descaso, manifestado pelo esvaziamento residencial e comercial, e pela deterioração de prédios históricos tombados, muitos em risco de desabamento e vandalismo. A infraestrutura precária também é um problema crônico, com calçadas destruídas, falhas no sistema de drenagem e falta de manutenção geral, o que, somado à insegurança e à crescente presença de usuários de drogas em praças centrais, afeta negativamente o comércio e a vida noturna, levando lojistas a sofrerem com furtos e a diminuição do fluxo de clientes. Moradores e comerciantes reclamam da falta de políticas eficazes, vendo o Centro refletir a "decadência moral" da cidade. O que tem motivado cobranças por parte de vereadores e associações, como a ACA, que demandam ações integradas de reabilitação, ordenamento urbano, segurança e dignidade. Embora tenham ocorrido algumas melhorias. Elas são pontuais e insuficientes para recompor o que foi perdido nos últimos anos. Assim, é necessário um conjunto de ações por parte do poder público e da sociedade, com o objetivo de restaurar o bairro que deu origem à cidade.

No passado, o Centro era o principal local de compras e lazer da cidade. Comércio, feiras, cinemas, teatros, universidades, faculdades e praças; todos fluíam para a “centro da cidade” para comprar, estudar e se divertir. Até mesmo a classe alta morava no centro, em prédios como Davi Novoa, Cidade de Manaus e Beta. Mas, com a expansão urbana, as opções de moradia, compra e lazer saíram em direção aos bairros periféricos. Com isso, o Centro deixou de ser atrativo, tanto do ponto de vista econômico quanto demográfico. As novas famílias que são formadas buscam locais mais atrativos para morarem. Os comércios sofreram queda nas vendas e saíram em busca de melhores locais. Além disso, a insegurança aumentou, uma vez que áreas abandonadas atraíram a marginalidade.

O suporte do IBGE é vital para a restauração do Centro de Manaus, pois seus dados quantificam o grave declínio urbano e o esvaziamento populacional e predial, confirmados pela queda demonstrada nos últimos Censos. Oferece dados necessários para que o poder público justifique a urgência e aloque recursos para reverter a deterioração de prédios históricos e a infraestrutura precária. Adicionalmente, a caracterização socioeconômica da população remanescente é crucial para planejar políticas de reabilitação urbana que preencham os vazios urbanos, combatam a especulação imobiliária e apoiem o comércio local, fornecendo a base empírica para as ações de ordenamento urbano e segurança cobradas pela sociedade.