Dr. Max Cohen, economista da Fécomércio-AM
O Relatório Focus divulgado pelo Banco Central nesta segunda-feira, 22 de setembro de 2025, trouxe atualizações importantes sobre as expectativas do mercado para inflação, crescimento, juros, câmbio e trajetória fiscal do Brasil. Os números reforçam tanto avanços pontuais quanto os desafios persistentes que o país enfrentará nos próximos anos, em especial no equilíbrio entre política monetária, desempenho econômico e sustentabilidade das contas públicas.
No caso da inflação, o IPCA projetado para 2025 está em 4,83%, superando o teto da meta contínua, que desde este ano passou a ser de 3% com tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Isso significa que o alvo deve ser observado em janelas móveis de 12 meses, e não mais apenas em um ponto fixo no final do ano. Se o índice ficar fora desse intervalo por seis meses consecutivos, considera-se que o Banco Central perdeu o alvo, o que de fato ocorreu após a divulgação do IPCA de junho, em 10 de julho. Para os anos seguintes, espera-se uma trajetória de desaceleração: 4,29% em 2026, 3,90% em 2027 e 3,70% em 2028, sugerindo convergência gradual, mas lenta, em direção ao centro da meta.
Quanto à atividade, o crescimento do PIB previsto para 2025 é de 2,16%, resultado razoável diante de um ambiente restritivo de crédito e incerteza fiscal. Para 2026, projeta-se desaceleração para 1,80%, seguida por uma retomada modesta para 1,90% em 2027 e 2,00% em 2028. O quadro é de expansão moderada, sustentada principalmente pelo consumo interno, mas sem sinais de aceleração mais robusta. Esse cenário reforça a necessidade de reformas e avanços estruturais que aumentem a produtividade e a competitividade, já que a economia segue crescendo em ritmo aquém do necessário para impulsionar investimentos e o mercado de trabalho.
A taxa Selic, atualmente em patamar elevado, em 15,00% ao ano, refletindo a persistência das pressões inflacionárias. O mercado projeta, no entanto, uma trajetória de queda gradual nos próximos anos, com 12,25% em 2026, 10,50% em 2027 e 10,00% em 2028. Esse movimento, se confirmado, poderá aliviar o custo de capital e estimular investimentos, mas dependerá do comportamento da inflação e da confiança em relação à condução da política fiscal. Juros ainda elevados no curto prazo indicam que o Banco Central segue cauteloso, diante do risco de que choques fiscais e cambiais comprometam a desinflação.
No câmbio, a expectativa para o dólar é de R$ 5,50 em 2025, com leve depreciação do real para R$ 5,60 em 2026 e 2027, antes de uma acomodação em R$ 5,54 em 2028. Esse patamar elevado traduz a percepção de riscos internos e externos, mantendo a taxa de câmbio sensível tanto a choques políticos e fiscais domésticos quanto ao cenário global de liquidez. O real mais fraco favorece as exportações, mas encarece importações e pressiona custos internos, impondo desafios adicionais ao controle da inflação.
O maior sinal de alerta continua sendo o quadro fiscal. O resultado primário deve permanecer negativo até 2028, partindo de -0,51% em 2025 e alcançando -0,14% ao fim do período. Já o déficit nominal continua elevado, em torno de -8,50% do PIB em 2025 e ainda em -7,00% em 2028, enquanto a dívida líquida do setor público cresce de 65,8% para 76,1% do PIB. Essa deterioração evidencia que a questão fiscal permanece sem solução de longo prazo, restringindo a capacidade de reduzir juros mais rapidamente e comprometendo a confiança de investidores e consumidores.
Diante desse panorama, a economia brasileira encontra-se em um delicado equilíbrio. De um lado, há sinais de desinflação gradual e algum crescimento sustentado pelo consumo; de outro, juros elevados, câmbio pressionado e um quadro fiscal em deterioração. Para os empresários e investidores, o momento exige cautela e planejamento estratégico, com foco em eficiência, diversificação de riscos e inovação. O futuro da economia dependerá essencialmente da capacidade do governo em avançar em medidas de ajuste fiscal e em reformas estruturais que destravem a produtividade, criando espaço para um crescimento mais sólido e sustentável.