Artigo - Entre o Fôlego e o Freio

Artigo - Entre o Fôlego e o Freio

Por Dr. Max Cohen, economista da Fecomércio-AM

Os resultados mais recentes das pesquisas da Confederação Nacional do Comércio (CNC) revelam um cenário de moderação e cautela na economia de Manaus. O Índice de Confiança do Empresário do Comércio (ICEC) fechou outubro em 115,6 pontos, mantendo-se acima da linha de otimismo (100 pontos), mas registrando queda de 6,9% em relação ao mesmo mês de 2024. Em comparação com setembro, o índice praticamente se manteve estável, refletindo um ambiente de expectativas ainda positivas, porém sem aceleração do otimismo. A percepção sobre as condições atuais da economia continua baixa (65,6 pontos), o que demonstra que o empresariado reconhece o peso do cenário macroeconômico restritivo, com juros altos e crédito caro.

Os empresários avaliam melhor a situação de suas próprias empresas (109,1 pontos) do que a da economia como um todo, sinalizando que o setor busca se adaptar com ajustes internos — controle de estoques, revisão de custos e investimentos seletivos — diante de um contexto econômico desafiador. O índice de investimento cresceu levemente (113,2 pontos), sustentado pelo aumento na expectativa de contratação de funcionários (131,5 pontos), o que sugere um otimismo prudente em relação ao desempenho do comércio no último trimestre. Na comparação com setembro, há um padrão de estabilidade: o ambiente segue de confiança moderada, sem piora relevante, mas também sem impulso renovado.

Do lado das famílias, a Intenção de Consumo das Famílias (ICF) passou de 119,8 pontos em setembro para 120,4 pontos em outubro, confirmando uma trajetória de leve alta e consolidando o maior nível do índice desde o início do ano. A percepção sobre o emprego atual melhorou ligeiramente (de 139,3 para 140,3 pontos), e 73,3% dos entrevistados seguem acreditando em melhora profissional nos próximos meses, o que reforça a sensação de estabilidade no mercado de trabalho. Contudo, o momento para aquisição de bens duráveis ainda é considerado desfavorável (72,5 pontos), em linha com o dado de setembro (70,7), o que mostra que o consumo de maior valor segue travado pelos juros elevados e pela incerteza econômica.

A manutenção da taxa Selic em 15% ao ano, decidida na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) realizada em 5/11/2025, reforça esse ambiente de crédito restrito. O Banco Central optou por manter o juro básico no maior patamar desde 2006 e sinalizou que deverá sustentar esse nível por um período prolongado, até que as expectativas de inflação convirjam para a meta de 3%. Para o comércio e o consumo das famílias, isso significa que o custo do crédito continuará elevado, inibindo novos financiamentos, restringindo compras parceladas e retardando decisões de investimento. Em Manaus, essa política monetária mais rígida tende a prolongar o quadro de contenção do consumo, mesmo com a melhora gradual da confiança.

A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC) traz um dado relevante de comparação entre os dois meses. O endividamento total subiu ligeiramente, de 86,6% das famílias em setembro para 87% em outubro, permanecendo em patamar recorde. No entanto, a inadimplência recuou, passando de 55,9% para 54,8%, e a parcela que não terá condições de pagar as dívidas caiu de 21,5% para 19,7%, o que sugere uma leve melhora no fôlego financeiro das famílias — possivelmente influenciada por renegociações de débitos e expectativa de aumento das vendas de fim de ano. Mesmo assim, o comprometimento médio da renda com dívidas permanece elevado, em 35,4%, e o cartão de crédito (74,7%) segue como principal fonte de endividamento, o que indica dependência do crédito rotativo.

Quando comparado ao cenário nacional, a situação de Manaus ainda é mais delicada. A PEIC da CNC mostra que 79,5% das famílias brasileiras estão endividadas e 30,5% apresentam contas em atraso, ambas marcas recordes. Em Manaus, os índices são significativamente superiores — 87% de endividamento e 47,6% de inadimplência —, revelando maior vulnerabilidade financeira e maior dependência do crédito para manter o padrão de consumo. Em síntese, o quadro é de resiliência cautelosa: tanto empresários quanto consumidores mantêm níveis de confiança estáveis, mas o peso das dívidas e o custo do crédito, agora reforçado pela manutenção da Selic em 15%, seguem limitando o dinamismo do comércio local. Entre o fôlego e o freio, a economia manauara respira — mas ainda com esforço, aguardando o momento de avançar sem perder o equilíbrio.