Por Dr. Max Cohen, economista da Fecomércio-AM
O tecido empresarial do Amazonas segue fortemente concentrado em Comércio e Serviços, que representam 86,7% das 831,7 mil empresas registradas na JUCEA em dezembro de 2025, frente a 13,3% da indústria. O número de empresas do segmento terciário cresceu 2,19% na passagem de novembro para dezembro, indicando resiliência do empreendedorismo formal, mesmo em um ambiente macroeconômico mais restritivo. Essa estrutura reforça a elevada sensibilidade da economia estadual às condições de consumo, crédito e renda das famílias.
Os dados do IBGE mostram perda de dinamismo do comércio varejista ao longo do segundo semestre. Em outubro de 2025, o volume de vendas recuou -1,0% na margem e -1,2% na comparação interanual, enquanto o acumulado em 12 meses desacelerou para 1,6%. O varejo ampliado seguiu trajetória semelhante, com queda mensal de -0,5% e retração interanual (-1,3%), sinalizando enfraquecimento especialmente nos segmentos mais dependentes de crédito e bens duráveis, sob impacto direto dos juros elevados.
O setor de serviços mantém crescimento apenas marginal. Apesar de variação positiva na margem em outubro (+0,5%), o desempenho interanual foi negativo (-5,2%), e o acumulado no ano praticamente zerou. O contraponto positivo vem do turismo, que permanece como principal vetor de expansão, com crescimento interanual de 12,9% e alta acumulada de 13,4% em 12 meses, confirmando seu papel estratégico como amortecedor da desaceleração observada em outros segmentos da economia estadual.
Os indicadores da CNC (Confederação Nacional do Comércio) revelam um quadro misto. A confiança do empresário do comércio (ICEC), em novembro, permanece em zona otimista (115,9 pontos), sustentada por expectativas futuras elevadas, mas as condições atuais seguem frágeis. Do lado das famílias, o consumo ainda se mantém acima da linha de satisfação (ICF em 119,8 pontos), apoiado por mercado de trabalho sólido, porém o acesso ao crédito deteriora-se, com forte queda no indicador de compra a prazo e elevado endividamento: 87,1% das famílias endividadas e 46,4% com contas em atraso, o que limita a expansão futura do consumo.
O mercado formal segue como principal pilar de sustentação da economia. O estoque de empregos em comércio e serviços atingiu 392,8 mil vínculos, novo recorde histórico, com crescimento interanual de 3,3%, representando 68,4% do emprego formal no Amazonas. Em contraste, a arrecadação de ICMS do comércio e serviços mostrou forte deterioração no fim do ano: queda de -12,3% em novembro na comparação interanual e recuo acumulado de -4,2% em 2025, refletindo desaceleração da atividade e compressão da base tributável.
O cenário macro segue desafiador. A Selic permanece em 15%, com curva de juros mais pressionada no curto prazo, refletindo percepção de risco inflacionário e fiscal. O câmbio voltou a se depreciar, com o dólar PTAX acima de R$5,45 e acima da expectativa média do Relatório Focus do Banco Central para 2025 (R$5,40). A inflação nacional mostra tendência de desaceleração, mas Manaus permanece como ponto fora da curva, com forte pressão no custo da cesta básica (+12,2% em seis meses). Em síntese, o quadro combina emprego resiliente e expectativas positivas com consumo seletivo, crédito restrito e perda de fôlego da atividade, exigindo estratégias empresariais focadas em eficiência, liquidez e adaptação ao novo ciclo econômico.