Artigo - Dívida pública em alta: o que isso significa para o bolso do brasileiro

Artigo - Dívida pública em alta: o que isso significa para o bolso do brasileiro

Dr. Max Cohen, economista da Fecomércio AM

Na última sexta-feira, o Banco Central divulgou os números das contas públicas de julho. O setor público consolidado registrou um déficit primário de R$ 66,6 bilhões, valor bem superior ao observado no mesmo mês do ano passado (R$ 21,3 bilhões). Esse resultado significa que o governo gastou mais do que arrecadou, mesmo antes de pagar os juros da dívida, o que contribui diretamente para o aumento da dívida pública. O impacto foi puxado principalmente pelo Governo Central, mas também atingiu governos regionais e estatais. No acumulado de doze meses, o país saiu de um pequeno superávit para um déficit de R$ 27,3 bilhões, equivalente a 0,22% do PIB, reforçando a trajetória de alta do endividamento.

Esse desequilíbrio fiscal pressiona a dívida pública. A Dívida Líquida do Setor Público chegou a 63,7% do PIB em julho, o que equivale a R$ 7,9 trilhões. O aumento não veio apenas pelo déficit primário, mas também pelo peso dos juros, que sozinhos acrescentaram quase um ponto percentual ao indicador. Além disso, a variação cambial — a alta do dólar — e a oscilação do PIB nominal também influenciaram essa conta. Em outras palavras: quando o país gasta mais e paga juros altos, a dívida cresce mais rápido.

O impacto dessa dívida maior aparece de forma indireta na vida das pessoas. Quanto mais o governo precisa se financiar, maior a pressão para manter juros elevados e atrair compradores de títulos públicos. Isso afeta o crédito no mercado: famílias encontram financiamentos mais caros, empresas têm dificuldade para investir e a economia cresce menos. É uma espécie de círculo vicioso que exige disciplina fiscal para ser quebrado.

Do lado das expectativas, o Relatório Focus traz sinais de alívio no campo da inflação. A mediana das projeções para o IPCA de 2025 está em 4,85%, após 14 semanas seguidas de queda, e caminha para valores mais próximos da meta nos anos seguintes. Isso mostra que o mercado enxerga algum controle sobre os preços, mesmo em um cenário fiscal mais apertado. Para o consumidor, essa é uma boa notícia, pois inflação mais baixa preserva o poder de compra.

Outro ponto importante está nas estatísticas monetárias e de crédito. A inadimplência no Sistema Financeiro Nacional atingiu 3,8% em julho, com alta tanto no crédito a empresas quanto às famílias. No crédito livre, os atrasos chegam a 5,2%, sendo mais preocupante entre pessoas físicas, com taxa de 6,5%. Além disso, as famílias brasileiras estão hoje com endividamento equivalente a 48,7% da sua renda, e comprometem 27,6% da renda mensal apenas para pagar dívidas. Esses números indicam um ambiente de maior cautela no consumo e maior dificuldade de acesso a crédito.

Já o crescimento econômico, embora positivo, tende a perder força. Para 2025, a previsão para o PIB é de 2,19%, desacelerando nos anos seguintes para algo próximo de 2%. A taxa Selic, hoje em 15%, deve cair gradualmente até 10% em 2028, o que abre espaço para reduzir o custo do crédito, mas esse processo será lento. No câmbio, a expectativa é de manutenção do dólar em torno de R$ 5,60, o que beneficia exportadores, mas encarece importações e pressiona custos no comércio.

Diante desse cenário, reforçamos mais uma vez que o empresário do segmento do comércio e serviços no Amazonas precisa se preparar para um ambiente de consumo mais seletivo e de crédito restrito. O aumento da inadimplência e o elevado endividamento das famílias sugerem que o consumidor tende a ser mais cauteloso nas compras. Por isso, será essencial oferecer condições de pagamento mais seguras, fortalecer estratégias de fidelização e valorizar diferenciais como qualidade e atendimento. Ao mesmo tempo, acompanhar de perto os custos financeiros e buscar maior eficiência operacional serão medidas decisivas para atravessar esse momento de ajuste da economia brasileira.