Por Dr. Max Cohen, economista Fecomércio-AM
A mais recente edição do relatório Cesta de Consumo NEOGRID & FGV IBRE trouxe um dado positivo para Manaus: em agosto, o preço médio da cesta básica recuou 3,03%, após leve queda em junho (-1,62%). Contudo, no acumulado dos últimos seis meses, a retração é de apenas 0,43%, revelando que o alívio no bolso do consumidor manauara ainda é modesto. O movimento reflete tanto a desaceleração pontual de alimentos essenciais, como arroz (-10,66%) e legumes(-7,09%), quanto a persistência de pressões sobre produtos processados e lácteos, afetados por custos de energia, transporte e clima adverso.
Essa tendência dialoga diretamente com o diagnóstico apresentado no Panorama Econômico – outubro/2025, da Fecomércio-AM, que mostra um cenário de cautela nas famílias e desaceleração do consumo, mesmo diante de melhora no mercado de trabalho. Segundo o diagnóstico, o endividamento atingiu 86,6% das famílias amazonenses, o maior patamar do ano, enquanto o Índice de Intenção de Consumo (ICF), da Confederação Nacional do Comércio (CNC), recuou 5,4% frente a 2024. Esse comprometimento de renda explica por que, mesmo com a redução de preços da cesta básica, o impacto no poder de compra é limitado — o alívio dos preços não se converte, de imediato, em aumento do consumo.
Os alimentos básicos vêm sendo o principal amortecedor da inflação local, mas a alta do dólar (entre R$ 5,30 e R$ 5,40) e o custo elevado do crédito — com a Selic mantida em 15% ao ano — restringem o acesso das famílias a bens de maior valor agregado. Além disso, produtos derivados de milho e trigo, como fubá, pães e margarinas, continuam pressionados pela menor oferta global e pelos custos logísticos regionais. Em Manaus, a margarina acumulou alta de 6,19% no semestre, enquanto snacks, molho de tomate e iogurtes — itens da cesta ampliada — subiram 3,46%, 1,67% e 1,15%, respectivamente, em agosto/2025.
O comportamento dos preços também reflete a estrutura econômica do estado: o Amazonas depende fortemente do transporte fluvial e da importação de produtos industrializados, o que amplia a sensibilidade local às variações de câmbio e combustíveis. Mesmo quando os preços recuam em centros como São Paulo e Rio de Janeiro, o repasse ao consumidor manauara tende a ser mais lento e desigual. Esse descompasso estrutural reforça a importância de políticas regionais voltadas à logística, armazenagem e produção local de alimentos, capazes de mitigar as distorções de preços entre o Norte e o restante do país.
Apesar da conjuntura desafiadora, há sinais de sustentação na base econômica de Manaus. O mercado de trabalho formal segue em alta — o comércio e os serviços respondem por 68,3% dos empregos formais e registraram crescimento de 3,3% em relação a 2024. Esse dinamismo, somado à moderação dos preços alimentares e à expansão gradual da confiança empresarial, pode criar espaço para uma retomada gradual do consumo interno no início de 2026, desde que os níveis de endividamento das famílias se estabilizem e o governo sinalize com uma melhor política de gastos.
Em síntese, o recuo recente da cesta básica em Manaus é um sinal de respiro, mas ainda distante de uma reversão estrutural do custo de vida. A economia local combina estabilidade no emprego com perda de poder de compra e crédito restrito — um equilíbrio delicado que exige gestão prudente e políticas de desenvolvimento voltadas à redução das desigualdades regionais de preço. O desafio central permanece o mesmo: transformar o alívio pontual dos alimentos em uma trajetória duradoura de melhoria no bem-estar das famílias amazonenses.