Artigo - Cenário para 2026

Artigo - Cenário para 2026

Por Dr. Max Cohen, economista da Fecomércio-AM

O ano de 2026 começa sob um ambiente de desaceleração econômica gradual, marcado mais por restrições persistentes do que por choques abruptos. A inflação acumulada em 12 meses recuou para 4,46% em novembro de 2025, mas permanece acima do centro da meta, com núcleos e serviços ainda pressionados. As expectativas seguem desancoradas — 4,2% para 2026 — o que sustenta uma política monetária restritiva por mais tempo. O cenário-base não pressupõe ruptura, mas choques políticos ou fiscais inesperados — internos ou externos — podem rapidamente deslocar o ambiente para trajetórias mais adversas, com impactos desproporcionais sobre crédito, confiança e câmbio.

O crédito tende a continuar como principal freio do ciclo em 2026, dada a ausência de sinalização clara de intervenções regulatórias que alterem estruturalmente o custo do capital no curto prazo. A taxa média das novas operações, no Brasil, alcançou 31,9% ao ano, com spread bancário de 20,9 pontos percentuais. No crédito livre, as taxas chegam a 46,7% ao ano, e para famílias, a 59,4%. A inadimplência total do sistema financeiro nacional está em 3,8%, enquanto a de pessoas físicas atingiu 6,3%, com alta de 1,0 ponto percentual em 12 meses. Mudanças regulatórias no mercado de crédito podem suavizar esse quadro na margem, mas também carregam o risco de elevar assimetrias e distorções se não vierem acompanhadas de ajustes fiscais críveis.

O cenário fiscal adiciona um componente estrutural de risco para o próximo ano. A dívida bruta do governo geral chegou a 78,6% do PIB em outubro de 2025, e o déficit nominal acumulado em 12 meses atingiu 8,18% do PIB. Não por acaso, os riscos fiscais aparecem como o principal fator de preocupação para 48% das instituições financeiras. A ausência de uma trajetória clara de consolidação fiscal mantém os juros longos elevados e reduz o espaço para políticas anticíclicas eficazes. Para 2026, esse quadro tende a manter os juros longos elevados, ampliando o custo do capital e reduzindo o espaço para decisões baseadas em cenários otimistas de curto prazo.

No Amazonas, os sinais de desaceleração são mais nítidos no núcleo do consumo. O varejo estadual registrou queda de -1,0% na variação mensal e de -1,2% na comparação interanual em outubro de 2025, com o crescimento acumulado em 12 meses desacelerando para 1,6%. Nos serviços, o desempenho interanual foi ainda mais fraco, com retração de -5,2%, e o acumulado no ano praticamente zerado. Além do turismo, setores ligados à logística, serviços públicos, saúde e parte do polo industrial tendem a apresentar maior resiliência relativa, enquanto segmentos dependentes de crédito ao consumidor e renda disponível mostram maior vulnerabilidade ao longo de 2026.

O principal contraponto positivo segue sendo o turismo. No Amazonas, o segmento cresceu 12,9% na comparação anual e 13,4% no acumulado em 12 meses, mantendo-se como vetor relevante de sustentação da atividade. Em 2026, isso sugere oportunidades táticas para empresas expostas a esse fluxo, enquanto os demais setores devem lidar com um consumidor mais cauteloso, pressionado por custo de vida elevado — a cesta básica atingiu R$ 847,45 em outubro, com alta de 12,20% em seis meses — e por elevado nível de endividamento, com 87,1% das famílias endividadas e 46,4% com contas em atraso.

Diante desse conjunto de fatores, 2026 se desenha como um ano de crescimento limitado e assimetria negativa elevada. O risco central não é uma crise abrupta, mas a continuidade de uma desaceleração gradual que corrói margens e consome caixa. Nesse ambiente, decisões irreversíveis — como expansão de capacidade, aumento estrutural de custos ou alavancagem excessiva — carregam riscos desproporcionais. A gestão deve monitorar, de forma contínua, indicadores como inadimplência, custo efetivo do crédito, juros longos, inflação de serviços, mercado de trabalho e sinais fiscais. A estratégia dominante para atravessar 2026 tende a ser a preservação de liquidez, investimentos faseados, foco em eficiência operacional e disciplina financeira, até que sinais mais claros de melhora no crédito, na inadimplência e na atividade efetivamente se consolide.