Por Manoel de Castro Paiva - Especialista em Mobilidade Urbana
As taxas de mortalidade no trânsito de países como Suécia e Holanda (3 e 4 mortes a cada 100 mil habitantes, respectivamente ) surpreendem e despertam interesse sobre como foi possível atingi-las. A meta tanto de suecos quanto de holandeses de zerar as mortes no trânsito ainda não foi alcançada, mas as taxas já estão entre as mais baixas do mundo.
Zerar mortes no trânsito não precisa ser uma meta apenas de países ricos!
No Brasil, ao cruzar dados preliminares do Ministério da Saúde para acidentes com a população estimada pelo IBGE, a taxa fica em 16,5 a cada 100 mil habitantes.
Com 202 vítimas fatais no período de janeiro a outubro de 2025, Manaus (AM) com mais de 2,303 milhões de habitantes em 2025, chegamos ao índice de 8,77 mortes por 100 mil habitantes. Alcançamos em 2024 o mais elevado número de vítimas fatais por ano (309 pessoas), alcançando a histórica marca de 13,55 mortes por 100 mil habitantes , o maior desde o ano de 2000.
O trânsito de Manaus não é apenas caótico; é letal! A cidade Manaus continua a apresentar riscos elevados para quem circula pela cidade, especialmente pedestres, ciclistas e motociclistas. Os Motociclistas de janeiro a outubro de 2025, foram as maiores vítimas, (96 motociclistas) perderam a vida em Manaus, equivalendo a 48,0% do total das vítimas fatais (200 vítimas).
O número de Pedestres no mesmo período, alcançou o valor de 68 vítimas, equivalendo a 34,0% do total de vítimas fatais de Manaus.
O total desse grupo mais vulnerável (Motociclistas e Pedestres) alcança o total de 164 pessoas (82,0%) do total de vítimas registradas (202 pessoas).
Esses números mostram que os usuários mais vulneráveis são também os mais impactados pela configuração e operação atual do sistema viário.
Também é possível fazer uma comparação com valores relativos. A cidade de São Paulo com11.904.961 habitantes, registrou 8,6 mortes/100 mil habitantes.
No mesmo ano, Helsinque teve apenas 4 mortes totais, representando 0,59 mortes por 100 mil habitantes. Mesmo considerando a diferença populacional, São Paulo mata 14 vezes mais. Helsinque também se destaca no próprio contexto europeu, com um desempenho consideravelmente melhor que outras capitais europeias. Berlim e Londres têm mais que o dobro de mortes por 100 mil habitantes. E em Viena e Madri, esse número é pelo menos 40% maior que o de Helsinque.
Não por acaso, Suécia e Holanda estão entre os países que adotaram a abordagem de Sistema Seguro, um método sistêmico que integra elementos centrais de gestão e áreas de ação para criar um ambiente de mobilidade seguro.
Sistemas Seguros se baseiam no princípio de que erros humanos irão acontecer, portanto o sistema viário deve fazer com que esses erros não resultem em ferimentos graves ou fatalidades. Essa abordagem traz uma mudança de paradigma ao promover o princípio da responsabilidade compartilhada. Governos são os principais responsáveis por oferecer um sistema de mobilidade seguro e devem trabalhar de forma conjunta com o setor privado e a sociedade civil para reduzir acidentes.
O conceito de Visão Zero, ou Sistema Seguro, propõe que nenhuma morte no trânsito é aceitável. Ele parte de três premissas fundamentais: erros humanos são inevitáveis, mas as ruas e vias podem ser projetadas para absorvê-los; o corpo humano tem limites de resistência e não deve ser exposto a impactos fatais; e a responsabilidade pela segurança é compartilhada entre projetistas, gestores, operadores e usuários.
Em Manaus, essa abordagem é urgente, porque mesmo uma única morte representa perda social irreparável, pois são famílias afetadas, jovens trabalhadores incapacitados e impactos econômicos diretos e indiretos. A vida humana não deve ser negociada! Nossa premissa é que se a morte poderia ter sido evitada, ela deve ser socialmente inaceitável.
Os acidentes em Manaus se concentram em pontos críticos. Exemplificamos as três vias mais perigosas de Manaus, onde ocorreram os mais numerosos acidentes com vítimas fatais, se destacando em primeiro lugar o Rodoanel Metropolitano com 28 vítimas fatais, apontando em 2024 o total de 20 óbitos e 8 vítimas em 2025 (-60,0%).
Em segundo lugar ocupa a maior via de Manaus, Av. Constantino Nery / Rodovia Torquato Tapajós com 26 vítimas fatais, sendo 17 em 2024 e 9 em 2025 (-47,0%). A Alameda Cosme Ferreira, na zona Leste, ocupa o terceiro lugar com 22 vítimas fatais, sendo 12 em 2024 e 10 óbitos em 2025 (-17,0%).
Trechos das avenidas Av. Constantino Nery / Rodovia Torquato Tapajós e Rodoanel Metropolitano apresentam alta frequência de colisões, com predominância de atropelamentos e acidentes envolvendo motociclistas. De forma geral, estudos mostram que os acidentes graves acontecem em vias com velocidade acima de 50 km/h, demonstrando relação direta entre excesso de velocidade e gravidade dos sinistros. Reduzir a velocidade salva vidas. Pequenas reduções na velocidade média resultam em grandes reduções no risco de fatalidade. Cidades que adotam limites de 30 km/h em áreas com alto fluxo de pedestres e ciclistas registram uma queda dramática no número de mortes no trânsito. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) a cada aumento de 1% na velocidade média resulta em um aumento de 4% no risco de um acidente fatal e de 3% no risco de um acidente grave. O risco de morte para acidentes frontalmente por carros aumenta 4,5 vezes quando a velocidade sobe de 50 km/h para 65 km/h. Em uma colisão entre carros a 65 km/h, o risco de morte para os ocupantes chega a 85%.
Outro fator que agrava o cenário é a distribuição desigual da infraestrutura urbana. Áreas periféricas, como Cidade Nova na Zona Norte, Compensa na Zona Oeste e São José Operário na Zona Leste, concentram grande número de acidentes devido à falta de calçadas contínuas, desobstruídas, travessias seguras, sinalização adequada e ciclovias. A ocupação desordenada dessas regiões, combinada com o fluxo intenso de motocicletas e automóveis, cria um ambiente propício para sinistros graves. Dados da Secretaria Municipal de Saúde (SEMSA) e Secretaria de Estado de Saúde indicam que mais de 60% das internações por trauma de trânsito em hospitais da rede pública são provenientes dessas áreas, mostrando impacto direto sobre o sistema de saúde e quantidade de leitos disponíveis para cirurgias.
A adoção de uma meta de “Acidente Zero” traz benefícios multissetoriais. Além de salvar vidas, reduz a sobrecarga do sistema de saúde, diminui os custos com internações e reabilitação, contribui para a produtividade urbana, aumenta a equidade territorial e social e melhora a qualidade de vida nas ruas. Nossa motivação por um trânsito mais humano e seguro em Manaus está em perfeita sintonia com as diretrizes estabelecidas pelo Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito (PNATRANS) e com o consenso internacional de melhores práticas, representando uma oportunidade ímpar para a cidade se reposicionar como um centro urbano que prioriza o bem-estar da sua população.
A meta acidente zero é simples: garantir que nenhum cidadão ou cidadã seja obrigado a pagar com a própria vida ou com a sua integridade física pelo simples e fundamental direito de se deslocar pela cidade. Portanto, alcançar a meta de Acidente Zero não é uma utopia inalcançável, mas sim a mais elementar, urgente e não delegável expressão de responsabilidade do poder público e de cidadania ativa, aplicada de forma concreta e determinada à realidade da vida urbana em Manaus, exigindo um pacto social firme e inabalável em defesa da vida.
Acidente com morte zero em Manaus: porque cada vida importa.
Para transformar essa aspiração em realidade, serão necessárias ações coordenadas de diversos setores, como:
Educação para o Trânsito: Campanhas contínuas de conscientização para motoristas, pedestres e ciclistas sobre regras de segurança, respeito mútuo e direção defensiva.
Fiscalização Rigorosa: Aplicação efetiva das leis de trânsito para coibir excesso de velocidade, uso de álcool ao dirigir e outras infrações perigosas.
Infraestrutura Segura: Investimentos em sinalização adequada, manutenção de vias, iluminação pública eficiente, construção de passarelas e ciclovias seguras.
Tecnologia e Monitoramento: Uso de tecnologia para monitorar o tráfego, identificar pontos de risco e responder rapidamente a emergências.