Artigo - A espinha dorsal do emprego formal no Amazonas

Artigo - A espinha dorsal do emprego formal no Amazonas

Por Dr. Max Cohen, economista da Fecomércio-AM.

O mercado de trabalho amazonense mantém, ao longo dos últimos anos, uma característica estrutural clara: é o setor do comércio e serviços que mais absorve mão de obra formal no estado. Os dados do CAGED de 2020 a setembro de 2025 mostram que o setor registra 391.565 empregos formais no último ano, número que representa mais do que o dobro do contingente industrial (176.422) e quase oitenta vezes superior à agropecuária (5.010). Essa predominância histórica demonstra que, no Amazonas, o dinamismo do emprego está muito mais ligado ao consumo e à oferta de serviços urbanos do que à produção fabril ou ao setor primário.

Do ponto de vista da participação relativa, o comércio e serviços respondem em 2025 por 68,3% do total de empregos formais, enquanto a indústria ficou com 30,8% e a agropecuária, com apenas 0,9%. Essa composição revela a estrutura de uma economia essencialmente urbana, concentrada na capital e nas atividades de intermediação de bens, transportes, turismo, alimentação e serviços pessoais e empresariais. Mesmo com os avanços industriais impulsionados pelo Polo Industrial de Manaus, a geração de postos de trabalho segue fortemente ancorada no terciário — o que reforça a centralidade do setor na estratégia de desenvolvimento regional.

As taxas de crescimento reforçam essa leitura. Entre 2020 e 2021, o comércio e os serviços cresceram 8,45%, mantendo expansão de 9,30% no ano seguinte e encerrando 2024 com alta acumulada de 5,60%. Ainda que em 2025 o ritmo tenha moderado para 3,28%, o padrão de crescimento é consistente e contínuo. A indústria, embora também apresente bom desempenho (8,82% em 2024 e 5,33% em 2025), parte de uma base muito menor de empregos. Já a agropecuária, além de pequena em termos absolutos, mostrou comportamento errático, alternando crescimento e retração ao longo do período — evidência de um setor de baixa estabilidade e limitada capacidade de absorção de trabalhadores.

A velocidade de crescimento, medida em pontos percentuais, mostra nuances importantes da trajetória recente. O comércio e serviços apresentou aceleração em 2022 (+0,85 p.p.) e 2024 (+0,78 p.p.), intercaladas por fases de desaceleração, como em 2023 (−4,48 p.p.) e 2025 (−2,32 p.p.). Essa oscilação revela a sensibilidade do setor ao ciclo econômico e ao poder de compra das famílias, mas sem alterar sua tendência de alta. A indústria, por sua vez, demonstrou forte aceleração em 2024 (+5,22 p.p.), após dois anos de perda de ritmo, enquanto a agropecuária mostrou comportamento volátil, alternando quedas e leves recuperações, o que a torna estatisticamente irrelevante na dinâmica agregada do emprego.

Quando se observa o CAGR (Taxa de Crescimento Anual Composta) — que capta o ritmo médio de expansão ao longo de todo o período —, o resultado confirma a liderança do terciário. Entre 2020 e 2025, o emprego formal no comércio e serviços cresceu a uma taxa média anual de 6,28%, praticamente igual à da indústria (6,24%) e três vezes superior à agropecuária (2,00%). A diferença está no impacto: o mesmo percentual aplicado sobre uma base de quase 400 mil postos produz efeitos muito maiores sobre o mercado de trabalho total do estado. Assim, mesmo quando a indústria cresce no mesmo ritmo, seu peso estrutural é insuficiente para alterar a hierarquia setorial do emprego.

A análise dos últimos cinco anos permite afirmar, com segurança, que o futuro do emprego formal no Amazonas continuará dependente do setor de comércio e serviços. Ele combina capilaridade, dinamismo e maior capacidade de adaptação às mudanças tecnológicas e comportamentais do consumo. O desafio estratégico do Estado é, portanto, elevar a produtividade e a qualificação da mão de obra no terciário, de modo que o crescimento em número de vagas venha acompanhado de ganhos de qualidade, renda e inovação. O fortalecimento desse segmento não é apenas uma questão de estatística trabalhista — é uma condição essencial para o desenvolvimento equilibrado e sustentável da economia amazonense. O Polo Comercial de Manaus já existe — falta apenas reconhecê-lo como o verdadeiro coração econômico da Amazônia.