Por Dr. Max Cohen, economista da Fecomércio-AM
O avanço recente da inteligência artificial (IA) está redesenhando a lógica de crescimento da economia global. O que antes era percebido como uma revolução essencialmente digital, centrada em software, algoritmos e dados, evoluiu para um novo paradigma: a IA como infraestrutura. Essa mudança tem implicações profundas. O crescimento do setor não depende mais apenas de inovação tecnológica, mas de uma base física robusta, intensiva em capital e altamente estratégica. Nesse contexto, abre-se uma janela de oportunidade para regiões que souberem se posicionar como fornecedoras dessa nova infraestrutura, e o Estado do Amazonas pode, com a estratégia adequada, integrar esse movimento.
Os grandes provedores globais de tecnologia (hyperscalers) projetam investimentos da ordem de centenas de bilhões de dólares por ano, podendo ultrapassar US$ 1 trilhão já em 2027. Esse volume não está concentrado apenas em chips ou software, mas em uma cadeia extensa: data centers, redes de transmissão, sistemas de armazenamento, capacidade elétrica, transformadores e infraestrutura logística. Em outras palavras, a inteligência artificial tornou-se uma indústria pesada. A consequência direta é a revalorização do mundo físico, um fenômeno que altera a distribuição de oportunidades na economia global.
Essa reprecificação já é visível nos mercados. Setores ligados à energia, semicondutores, infraestrutura e componentes industriais passaram a ocupar posição central nas estratégias de investimento. O ponto crítico é a existência de gargalos: escassez de transformadores, limitações na expansão da rede elétrica, dificuldades logísticas e restrições na cadeia de suprimentos. Esses limites físicos impõem um novo tipo de escassez, não de ideias, mas de capacidade de execução.
É nesse cenário que surge a pergunta central: como o Amazonas pode se inserir nesse novo ciclo de desenvolvimento? O Estado possui vantagens comparativas relevantes, mas ainda subexploradas sob essa ótica. A primeira delas é energética. A matriz brasileira, com forte participação de fontes renováveis, já é um diferencial competitivo em escala global. No caso do Amazonas, há potencial adicional ligado à bioeconomia, à geração distribuída e a soluções híbridas que podem posicionar a região como fornecedora de energia sustentável para projetos intensivos em dados. Em um mundo onde grandes empresas buscam reduzir a pegada de carbono de seus data centers, essa característica ganha valor estratégico.
A segunda vantagem é geográfica e ambiental. A Amazônia, historicamente vista apenas como ativo ambiental, pode ser reposicionada como elemento central na economia da transição energética e da infraestrutura verde. Projetos que integrem preservação, geração de valor e tecnologia tendem a atrair capital internacional, especialmente em um contexto de crescente exigência por critérios ESG (ambientais, sociais e de governança). A terceira dimensão é institucional e industrial. A Zona Franca de Manaus, tradicionalmente associada à indústria eletroeletrônica, pode evoluir para um novo papel: hub de manufatura avançada e serviços tecnológicos voltados à infraestrutura da economia digital. Isso inclui desde componentes eletrônicos até soluções ligadas à eficiência energética, conectividade e suporte a operações de tecnologia.
No entanto, para capturar essas oportunidades, é necessário um movimento coordenado. Três frentes são fundamentais. A primeira é infraestrutura. Investimentos em energia, conectividade e logística são pré-condições para qualquer inserção relevante nesse novo ciclo. Sem capacidade de entrega física, não há atração de projetos estruturantes. A segunda é ambiente regulatório e institucional. Segurança jurídica, incentivos bem desenhados e capacidade de articulação com investidores internacionais são elementos decisivos. O capital global busca previsibilidade, e isso depende mais de governança do que de retórica. A terceira é estratégia de posicionamento. O Amazonas precisa se apresentar ao mundo não apenas como uma região periférica, mas como parte da solução para um problema global: a necessidade de infraestrutura sustentável para suportar a expansão da inteligência artificial. Isso exige narrativa, planejamento e execução.
Em síntese, o avanço da inteligência artificial está inaugurando uma nova fase do desenvolvimento econômico, na qual o digital e o físico se tornam indissociáveis. A disputa por crescimento passa, cada vez mais, pela capacidade de prover infraestrutura crítica, especialmente energia e rede. O Amazonas, se souber alinhar seus ativos naturais, industriais e institucionais a essa nova lógica, pode deixar de ser um espectador periférico para se tornar um participante relevante na economia do futuro.