Otimismo a prazo

Otimismo a prazo

Por Dr. Max Cohen, economista da Fecomércio-AM

Os três retratos que a Confederação Nacional do Comércio (CNC) divulgou para Manaus em maio de 2026 contam, à primeira vista, três histórias diferentes; lidos em conjunto, contam uma só. O empresário ainda confia, a família ainda quer comprar, e o consumo se sustenta – só que cada vez mais sobre uma base de crédito que começa a dar sinais de fadiga. É o tipo de configuração que costuma anteceder pontos de inflexão: não há crise à vista, mas há perda de fôlego, e a leitura responsável dos dados recomenda trocar a euforia pela disciplina.

Comecemos pela ótica de quem vende. O Índice de Confiança do Empresário do Comércio (ICEC) fechou maio em 113,3 pontos, ainda em zona de otimismo, mas com recuo mensal de 3,2% e distante do pico de 119,1 alcançado em fevereiro. O detalhe revelador está na divisão entre presente e futuro: as condições atuais (ICAEC, 91,8 pontos) seguem abaixo da neutralidade, com a percepção sobre a economia brasileira em francos 70,3 pontos – dois terços dos empresários acham que o país piorou. Em contrapartida, a expectativa para os próprios negócios beira a euforia (151,3 pontos), com mais de 80% prevendo melhora. Esse descolamento entre um macro percebido como frágil e um micro percebido como resiliente é o traço mais importante da pesquisa: o empresário de Manaus continua apostando em si, mesmo desconfiando do terreno.

Do lado da demanda, a notícia é genuinamente boa e merece ser dita sem ressalvas excessivas. O Índice de Intenção de Consumo das Famílias (ICF) subiu a 126,0 pontos, com alta de 1,6% no mês e robustos 7,7% em doze meses, recuperando o ritmo após a acomodação do início do ano. O motor é claro e saudável: o emprego. O componente de situação atual do trabalho avançou 25,9% na comparação anual, a perspectiva profissional saltou 44,4% e a avaliação da renda subiu 23,3%. Quando o consumo é puxado por emprego e renda, e não apenas por crédito, ele tende a ser mais sustentável e essa é a parte mais sólida do quadro de Manaus.

A ressalva, porém, está nas dobras dos números. O consumo corrente recuou 2,3% no mês, o momento para comprar bens duráveis segue abaixo da linha de satisfação (88,6 pontos), com metade das famílias considerando-o desfavorável, e o crédito, ainda que de volta ao terreno positivo (104,0 pontos), revela uma fratura nítida por faixa de renda: as famílias acima de dez salários mínimos enxergam o crédito com folga (139,0 pontos), enquanto as demais ficam coladas na neutralidade. Em outras palavras, a confiança existe, mas é seletiva e os juros continuam sendo o filtro que separa quem pode parcelar de quem apenas adia.

É na terceira pesquisa que a conta aparece. A PEIC mostra 88,8% das famílias manauaras endividadas, 629,5 mil lares, e, mais preocupante, a inadimplência subindo a 50,4%, alta de 1,7 ponto no mês e 3,0 pontos no ano, atingindo 357,6 mil famílias com contas em atraso, o maior nível da série recente. A qualidade dessa dívida é ruim: quase metade dos inadimplentes (48,9%) deve há mais de 90 dias, o atraso médio é de 63 dias e o cartão de crédito, a modalidade mais cara, lidera o endividamento, presente em 68,6% dos lares. Houve, é verdade, uma melhora marginal na percepção de quem se diz incapaz de pagar (de 17,6% para 16,3%), mas trata-se de um alívio de margem dentro de uma deterioração de tendência.

Reunidos, os três indicadores desenham a economia de uma cidade que ainda anda, mas começa a sentir o peso da própria caminhada. A confiança do comércio modera; o consumo das famílias avança puxado por emprego e renda — fundamentos legítimos —, porém se apoia num crédito crescentemente esticado e desigualmente distribuído; e o endividamento, com inadimplência longa e cara, mina silenciosamente a capacidade futura de gastar. A vulnerabilidade se concentra, como quase sempre, na base da pirâmide: entre as famílias de até dez salários mínimos, 89,2% estão endividadas e 51,2% em atraso, contra um quadro muito mais confortável no topo.

A síntese de um observador sênior é, portanto, de prudência calibrada, não de pessimismo. Manaus entra na segunda metade de 2026 com fundamentos de demanda preservados e um empresariado ainda disposto a investir, mas com pouca margem para erro. Para quem decide é dever priorizar eficiência operacional, preservar caixa, segmentar a oferta por capacidade real de pagamento e endurecer a gestão de risco de crédito. O otimismo de Manaus é verdadeiro, mas, neste momento, é um otimismo a prazo, e prazos, como ensina qualquer ciclo econômico, sempre vencem.