Artigo - Inteligência artificial e o mercado de trabalho

Artigo - Inteligência artificial e o mercado de trabalho

Por Osíris M. Araújo da Silva – economista

Ao se analisar cenários alusivos ao futuro do trabalho, a Inteligência Artificial (IA) invariavelmente domina o debate. A tecnologia já está transformando a forma como profissionais atuam, e fazendo empresas repensarem o próprio significado do trabalho. Mas, embora a IA seja o motor mais visível dessa mudança, está longe de ser o único. A maioria dos especialistas veem a alfabetização tecnológica como competência central nas previsões para 2026, acompanhada de uma fluência cada vez maior na colaboração entre humanos e sistemas de IA. Ainda assim, é consenso que as transformações mais profundas vão além da tecnologia, apesar de muitas vezes serem consequência desses avanços.

Para Ryan Starks, em artigo publicado na revista Forbes, desta semana, head de crescimento da Rising Team, companhia de tecnologia e consultoria de cultura organizacional, a pressão orçamentária será determinante, “os CFOs (Chief Financial Officer), o Diretor Financeiro executivo de mais alto nível responsável pela saúde financeira, planejamento e estratégia de uma empresa, gerenciando fluxo de caixa, orçamento, investimentos e analisando dados para apoiar decisões), vão analisar os orçamentos de RH como nunca antes, e cada real precisará se justificar”, afirma. À medida que a IA assume tarefas técnicas, ganham protagonismo habilidades que especialistas do setor passaram a chamar de “power skills“: inteligência emocional, criatividade, resiliência, curiosidade e influência social. “Essas competências são a base da liderança em um mundo moldado pela automação.”

Segundo especialistas consultados, são, de início, 5 as tendências de trabalho projetadas para 2026.

1. Power skills e humanidade estarão no centro da transformação: O futuro do trabalho pertencerá a quem conseguir equilibrar tecnologia com habilidades essencialmente humanas. Para Jen Paterno, cientista comportamental sênior da CoachHub, plataforma digital de coaching corporativo, o termo “soft skills” já não dá conta dessa realidade, na verdade “minimiza o impacto de competências essenciais”, afirma. Segundo a especialista, organizações que investirem no desenvolvimento dessas competências por meio de coaching, feedback contínuo e aprendizado não apenas acompanharão as mudanças, mas sairão na frente.

2. Avaliação e retenção de funcionários passarão por mudanças: Outro pilar em transformação é a forma como empresas avaliam desempenho. Para Audra Stanton, head de produto da Ninety.io, plataforma de gestão empresarial, os modelos tradicionais ficaram para trás. “As avaliações anuais de desempenho são falhas.” A tendência, segundo ela, é que sejam substituídas por ciclos contínuos de feedback integrados a plataformas digitais. Nesse novo formato, a IA terá papel central. Ao monitorar reuniões, identificar padrões de comunicação e sinalizar potenciais conflitos, sistemas inteligentes poderão alertar líderes em tempo real sobre a necessidade de feedback. “Deixa de ser um evento temido e passa a ser parte da rotina.”

3. O trabalho remoto será um benefício competitivo: Embora o trabalho híbrido siga presente, o retorno ao presencial continua ganhando força. De acordo com uma pesquisa da Owl Labs, empresa de tecnologia especializada em soluções de videoconferência, 34% dos profissionais em modelo híbrido já vão ao escritório quatro dias por semana, um salto em relação aos 23% registrados em 2023. A tendência, conhecida como “hybrid creep”, indica uma redução gradual da flexibilidade.

4. Desempenho e impacto mensurável redefinirão o papel do RH: Se antes o RH era avaliado por iniciativas, em 2026 ele será cobrado por impacto mensurável. Shane Hadlock, diretora de clientes e tecnologia da Paycom, empresa de tecnologia e gestão de capital humano, prevê que o foco estará na consolidação de sistemas e na adoção de arquiteturas tecnológicas integradas. Consultorias externas devem permanecer restritas ao nível executivo. No restante da organização, sistemas baseados em IA devem assumir funções antes delegadas a especialistas, replicando programas de desenvolvimento de liderança de forma contínua, acessível e em larga escala.

5. A lógica “skills-first” reduzirá o peso do diploma: Para Ayers, da Xplor Technologies, 2026 marca um ponto de virada na relação entre formação acadêmica e empregabilidade. O aprendizado no trabalho ganha novo status, com bootcamps corporativos e programas internos de capacitação se tornando investimentos padrão. Nesse modelo, diplomas tradicionais perdem centralidade.

Chris Graham, vice-presidente executivo de força de trabalho e educação comunitária da National University, dos EUA, concorda que a contratação baseada em habilidades deve avançar. Ainda assim, ressalta que o diploma continuará influenciando a renda. “Pessoas com bacharelado ganham, em média, 68% a mais por semana do que aquelas com apenas o ensino médio”, afirma. Entretanto, afirma, profissionais sem diploma seguirão encontrando oportunidades, mas muitos optarão por cursar uma graduação em paralelo, como forma de ampliar o potencial de ganhos no longo prazo.